A agricultura representa já cerca de 25% do Produto Interno Bruto de Angola — acima do petróleo, que contribui com cerca de 15%. O dado foi avançado por José de Lima Massano, ministro do Estado para a Coordenação Económica, e inverte uma narrativa que durante décadas definiu Angola perante o mundo: a de um país cujo motor económico é o crude.
“A nível externo, quando se refere o que somos de economia, primeiro vem o petróleo. O que estamos a dizer é que já não é assim”, afirmou Massano. E acrescentou, sem rodeios, a ressalva que os números exigem: o petróleo continua a ser responsável por cerca de 95% dos recursos cambiais para o mercado angolano. A agricultura pode estar a “ditar o ritmo” da economia interna, mas é o crude que paga as importações.
Os progressos mais concretos estão na produção de carnes. As importações de carne bovina caíram cerca de 50% no último ano. A produção de frango triplicou — de 20 mil para 60 mil toneladas por ano. E Massano antecipa que, até ao final de 2025, a necessidade de importar carne suína será “quase exígua”. São números que, se confirmados, representam uma transformação significativa numa economia que dependia largamente do exterior para abastecer a mesa dos angolanos.
Indústria transformadora a crescer 16% ao ano
A dinâmica agrícola está a arrastar a indústria transformadora, que cresce 16% ao ano — e a indústria alimentar, com crescimento em dois dígitos, representa já quase metade do total da indústria transformadora do país. Para Massano, esta combinação — mais produção agrícola, mais transformação local — é a concretização da estratégia de substituição de importações que o Executivo tem defendido.
“Quando falamos de segurança alimentar, dizemos que ela não é isolada: temos infraestruturas que o país está a colocar à disposição dos empreendedores e que temos que aproveitar”, apelou o ministro.
Para além da agricultura e da indústria, Massano identificou outros sectores em ascensão. O turismo está a “ganhar dinamismo” e vai, nas suas palavras, “roubar espaço a alguém” na composição do PIB. A logística deverá receber investimentos relevantes. E os recursos minerais — para além do petróleo — continuam a ser uma aposta de médio e longo prazo.
A ambição declarada é uma economia “diversificada, integrada, moderna e capaz de continuar a gerar bem-estar.” Os números da agricultura e da indústria alimentar sugerem que o caminho está a ser percorrido. O teste continuará a ser a velocidade a que a diversificação avança — e se consegue reduzir a dependência cambial do petróleo antes que os preços do crude voltem a cair.