A oferta pública inicial (IPO) da Refinaria Dangote arranca esta segunda-feira, dia 14 de Setembro, naquela que deverá ser a maior estreia de sempre numa bolsa africana. A operação, aprovada pela Comissão de Valores Mobiliários da Nigéria (SEC), marca o momento em que a maior refinaria de África passa a ter capital aberto ao investimento público, menos de dois anos depois de ter começado a operar.
De acordo com o prospecto divulgado a 7 de Setembro, a Dangote Petroleum Refinery and Petrochemicals vai colocar no mercado 4,1 mil milhões de acções ordinárias, a um preço fixo de 525 nairas cada — cerca de 40 cêntimos de dólar. Caso a subscrição seja totalmente preenchida, a operação pode arrecadar aproximadamente 2,15 biliões de nairas, o equivalente a cerca de 1,5 a 1,6 mil milhões de dólares, avaliando a refinaria entre os 40 e os 49 mil milhões de dólares. Está ainda prevista uma opção de reforço (“greenshoe”) de até 30%, para absorver eventual procura excedentária.
A subscrição mínima foi fixada em apenas dez acções — cerca de 5.250 nairas —, um valor que a empresa e os bancos envolvidos na operação, entre os quais a FirstCap, a FCMB Capital e a Vetiva Capital Management, apresentam como uma forma de tornar acessível a um vasto leque de nigerianos e de outros africanos a participação num dos activos industriais mais relevantes do continente. A oferta fica aberta até 13 de Outubro, com investidores particulares a poderem subscrever electronicamente através de bancos, plataformas digitais ou corretoras, e investidores institucionais por via electrónica ou por formulário junto de agentes receptores.
Aliko Dangote, o homem mais rico de África e fundador do grupo que detém a refinaria, descreveu a operação como a primeira oferta pública desde a entrada em funcionamento da unidade, em 2023, e reivindicou tratar-se da maior IPO de sempre em África.
Uma expansão que pode tornar a Dangote a maior refinaria do mundo
A refinaria, situada numa zona franca nos arredores de Lagos, opera actualmente com uma capacidade de cerca de 700 mil barris por dia — acima da capacidade nominal original de 650 mil barris —, o que já faz dela a maior instalação do mundo assente numa única unidade de destilação de crude. Parte dos fundos angariados na IPO destina-se a financiar um ambicioso plano de expansão que visa duplicar a capacidade para 1,4 milhões de barris diários, através da instalação de uma segunda unidade de destilação.
Caso este plano avance como previsto, a refinaria nigeriana ultrapassará a indiana Jamnagar, propriedade da Reliance Industries do bilionário Mukesh Ambani, tornando-se, sem qualquer ressalva, a maior refinaria do mundo.
Impacto já visível nas exportações e nas contas públicas
Desde que entrou em funcionamento, a unidade tornou-se o principal fornecedor de combustíveis do mercado nigeriano e um exportador relevante de combustível para aviação com destino à Europa. Segundo dados da Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), a refinaria contribuiu para um aumento de sete vezes nas exportações de produtos petrolíferos a partir da Nigéria desde 2023.
O impacto económico da refinaria tem também sido destacado por analistas locais: um conhecido economista nigeriano estima que o activo poderá ajudar a duplicar o Produto Interno Bruto do país, elevando-o para cerca de 600 mil milhões de dólares até 2030. Já a FirstCap, um dos bancos de investimento envolvidos na operação, sublinha que o afastamento gradual da Europa dos combustíveis russos deverá reforçar a procura de médio prazo pelos produtos da refinaria nigeriana, a par de uma procura sustentada por parte dos mercados da África Ocidental.
De prejuízo a lucro em plena preparação da IPO
O momento da oferta surge depois de uma recuperação financeira acentuada da empresa: depois de ter registado um prejuízo líquido de 476 milhões de dólares em 2025, a refinaria inverteu a tendência e apresentou um lucro líquido de 1,82 mil milhões de dólares apenas no primeiro semestre de 2026, com um EBITDA de 2,60 mil milhões de dólares no mesmo período, impulsionado por uma taxa média de utilização da capacidade instalada de 83,6%.
O responsável executivo da empresa já indicou que uma eventual dupla cotação em bolsas internacionais, nomeadamente em Londres, não deverá acontecer antes de 2029, o que faz da janela de subscrição que agora se abre em Lagos a única via de acesso próxima ao capital da refinaria para a generalidade dos investidores internacionais — sujeitos, no entanto, à abertura de contas específicas junto de correctoras nigerianas licenciadas.