Opinião

A Lucidez cruel que traz a transformação social

Sou da geração 50+, e como tal, vi Angola enfrentar várias fases económicas e sociais, e como muitos angolanos, continuo a sonhar com o dia em que vamos conquistar um desenvolvimento social menos sofrido. 

Alias, quem é da minha geração, lembra-se, certamente, de uma infância socialista, em que o “bem comum” nos era incutido como princípio básico de sobrevivência. “Amar o próximo, como a nós mesmos”. Confesso, que até hoje, sinto que tenho uma influência socialista cristã muito forte, no entendimento de justiça, relacionamentos e trocas.

Claramente que, o que até aqui nos trouxe, não tem trazido os resultados esperados. Estamos em crise, e precisamos, com urgência, de um novo modelo de sobrevivência. O que tem falhado nas empresas e no nosso desenvolvimento social?

Em conversa com um tio já reformado, ele disse-me: “se tivesse lido Maquiavel mais cedo, teria agido de forma diferente”. Porquê tio? Porque estamos a ignorar a natureza humana, vendendo a cultura de pertencimento, do propósito elevado, e de “vestir a camisa” por amor as marcas. Nas empresa, engajamos nossos colaboradores com feedbacks positivos e idolatramos o clima organizacional saudável, como solução definitiva. Isso já não tem como resultar.

O funcionário que trabalha “por amor” é o primeiro a pedir a demissão quando a concorrência oferece 10% a mais. E isso é errado, perguntei eu: Bem, entrar nesta dicotomia de sobrevivecia, seria trair Maquiavel, disse ele a sorrir…

Errado é deixarmos o pragmatismo de lado, e não querermos perceber o que nos move à todos. Líderes adoram discursos sobre “propósito” e “transformação social”. Maquiavel sussurra: “Isso não sustenta ninguém.” Os homens são movidos por interesses próprios: riqueza, status e segurança.

Lembraste de quando estamos num avião, qual o aviso: “Em caso de emergência, máscaras de oxigênio vão cair à sua frente. Coloque primeiro a sua máscara, antes de ajudar outros passageiros” … isso não é por acaso, o princípio é o mesmo, precisamos de ter nosso cérebro oxigenado, para agir com clareza. A escassez limita nossa actuação, pois todas as decisões serão por sobrevivência.

A verdadeira capacitação de equipes para o desenvolvimento social não ocorre quando ensinamos as pessoas a serem ‘boas’ ou ‘cristas’, mas quando as ensinamos a serem realistas, analíticas e pragmáticas, na gestão do seu próprio destino.

Maquiavel ensina que o progresso será sustentável se os interesses individuais (crescimento na carreira, reconhecimento público, ganho material) estiverem alinhados com o interesse coletivo.

É mais honesto conquistar o engajamento das equipes, do que acreditar que apelar a boa vontade e a justiça dos processos de evolução social, teremos resultados positivos.

O desenvolvimento contínuo floresce, quando a liderança tem a coragem de desenhar um jogo onde o interesse individual impulsiona o sucesso coletivo. Onde “o ser bom para si mesmo” é directamente proporcional ao “fazer bem para todos”

Se tivesse lido Maquiavel antes, teria feito com que fosse mais vantajoso para os colaboradores servirem a empresa, do que a traírem, concluiu o meu tio.

Saí mexida daquela conversa. O quê? Tinha de pensar primeiro em mim? A “dicotomia da sobrevivência” tinha dito meu tio: o conflito fundamental do instinto puramente biológico de existir e o desejo humano de viver com prosperidade.

“Quem não assume a sua própria estabilidade, não tem como assumir responsabilidades pelos outros” escreveu Maquiavel.

A máscara. Agir local e pensar global. Tantos conceitos conflitantes dentro de mim. Lembrei-me que li num livro: pague-se primeiro.

Ainda vamos a tempo. Meu tio, de alguma forma, fez a sua parte. Tenho que, também, fazer a minha.

Deixo a pergunta a todos os líderes desta Angola-nossa: se tivesse de reescrever todo o plano estratégico de sua empresa a partir desta premissa: “de que ninguém na sua equipe iria agir, sem pensar em si primeiro”, o que mudaria de imediato?

Continuemos a amar o próximo, tendo como base que nos amamos muito, e primeiro. Pensando em si, continue remando e não abandone o barco, onde vamos todos.

Por: Sónia Antas- Directora Geral da Trimethodus

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