Após a publicação do artigo “Mandioca: a raiz desprezada da diversificação económica”, surgiram vozes críticas que questionam a legitimidade de considerar a mandioca um símbolo da identidade angolana ou africana.
O argumento central desses críticos é simples: a mandioca não é africana, veio do Brasil, portanto, é herança da colonização, não da cultura local.”
Trata-se de um raciocínio que ignora um facto essencial: a identidade não se define exclusivamente pela origem, mas pelo significado construído ao longo do tempo.
A mandioca, embora de origem americana, foi moldada, ressignificada e profundamente apropriada pelas sociedades africanas, a ponto de hoje ser impensável conceber a cultura alimentar angolana, no caso, sem a mandioca.
A mandioca é tão africana quanto a batata, também das Américas, é irlandesa. O molho de tomate e o esparguete não são italianos. O chá não é inglês.
No entanto, todos estes elementos tornaram-se pilares das identidades dos povos que os abraçaram.
Subscrevo, por isso, a tese que considera que o que define a pertença não é o ponto de partida, “mas o percurso, o que se fez com aquilo que chegou de fora.”
No caso da mandioca, não houve imposição. Houve apropriação cultural legítima. O camponês africano adaptou a planta aos seus solos e ritmos agrícolas. A mulher africana transformou-a em funje, bombó, tchinguangua, farinha, está presente nas oferendas, nos rituais.
A mandioca foi de tal forma absorvida e reinventada por povos que habitam o actual território de Angola que acabou reconhecida até pelo próprio colonizador como um produto local.
Paradoxalmente, esse mesmo colonizador, por não dominar os saberes associados ao seu cultivo, transformação e distribuição, a relegou à condição de “comida de gente atrasada ”, inscrevendo-a na lógica colonial de desvalorização do endógeno.
Mas é precisamente essa rejeição institucional que torna a afirmação simbólica da mandioca ainda mais forte: ao resistir ao desprezo, emergiu como sinal de pertença e dignidade popular.
Cultura não é museu. Não é um acervo estático de peças “originais”. É um corpo vivo, dinâmico, poroso, criativo. As culturas que “sobrevivem são precisamente aquelas que se reinventam” dizem os estudiosos.
E nesse processo, os africanos não foram receptores passivos: foram protagonistas conscientes e soberanos, moldando o que lhes chegou de fora segundo os seus códigos e necessidades.
A mandioca pode não ter nascido em África, mas tornou-se africana na prática, no paladar e no coração de quem a transformou em símbolo de pertença.
Hoje, é mais do que um alimento, é testemunho de engenho, memória de luta, legado vivo de adaptação e inteligência colectiva.
Negar isso é perpetuar uma visão estreita e profundamente eurocêntrica da cultura. Uma visão que infantiliza os povos africanos, recusando-lhes o direito à apropriação criativa de elementos exógenos.
Assim sendo, mais do que celebrar a mandioca como símbolo cultural, devemos lutar para que o tubérculo ocupe o lugar que merece nas estratégias de desenvolvimento do país.
Trata-se de uma cultura resiliente, versátil e vital, capaz de diversificar a nossa alimentação, sustentar a pecuária, dinamizar cadeias agroindustriais e fortalecer a pauta de exportações.
Na planta da mandioca, tudo se aproveita. Mas o seu maior valor talvez esteja no que ela representa: a sabedoria ancestral de sociedades que, ao longo de séculos, adaptaram, multiplicaram e dignificaram esta preciosa raiz.
Urge, portanto, sistematizar esses saberes, estudá-los com seriedade e dialogar com as experiências de outros países tropicais, como Brasil e Nigéria, onde a mandioca tem sido alavanca de progresso social e económico.
Sejamos, pois, dignos dos africanos do passado que souberam acolher o que veio de fora sem abrir mão de si mesmos.
Autor: Raimundo Salvador