A era digital alterou profundamente a forma como vemos a verdade, colocando em risco a nossa própria democracia e sociedade.
Num mundo onde cada um tem a sua verdade, o que ainda significa buscar algo “verdadeiro”? Vivemos na era da informação e da desinformação ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil saber tudo, nem tão difícil saber distinguir o real do ilusório.
O debate sobre esta crise não se pode limitar apenas de que a internet facilitou o acesso a notícias falsas, na verdade as pessoas só acreditam em conteúdos falsos quando já têm uma preferência política anterior que só é reforçada pela influência digital.
Estamos num mundo em que somos forçados a nos adaptarmos à toda evolução tecnológica, e em que a velocidade e a interação digital moldam a forma como a informação circula, torna-se urgente reflectir sobre o modo como esses factores conseguem distorcer a percepção do real.
Se a verdade é construída socialmente, então as redes sociais funcionam como filtros personalizados de realidade — cada um vive dentro da sua “verdade reforçada”.
Por exemplo, a famosa filósofa Hannah Arendt, apesar de Arendt não ter apresentado soluções políticas de forma directa, ela defendia que a educação tem a responsabilidade de apresentar aos novos a realidade e história de um mundo comum. Podemos concluir, que ainda assim diante de todos os riscos políticos para a sociedade , a educação pode ser um modo de resistência à mentira organizada e às fake news.
A educação neste sentido assume um papel essencial como resistência, não se trata apenas de instruir as pessoas, mas de formar pessoas capazes de pensar de forma crítica, saber distinguir o verdadeiro do manipulado e tentar voltar a construir um espaço de diálogo.
Um cidadão educado e crítico é menos manipulável e mais capaz de participar conscientemente na vida pública, e actualmente é isto que o mundo precisa.
Por exemplo, na época em que a pandemia de COVID-19 estava a complicar-se, muitas pessoas estavam à procura de informações sobre como se proteger contra a doença. Foi nesse contexto que surgiram notícias falsas sobre a vacinação contra a COVID-19.
Algumas pessoas alegavam que a vacina era perigosa, que causava efeitos colaterais graves ou até mesmo que era uma conspiração para controlar a população. No entanto, essas notícias eram completamente falsas e não tinham fundamento científico.
Por estas notícias é que se deve aplicar medidas a nível social, países como a Finlândia introduziram a “Alfabetização Midiática” no currículo. Desde o pré-escolar, crianças aprendem a avaliar conteúdos publicados nas redes sociais.
Por estas e outras razões de que a democracia precisa de pessoas que saibam pensar por si, e não apenas repetir conteúdos de redes sociais.
Como Immanuel Kant, que defendia “Sapere aude! ” Tenha a coragem de fazer uso do seu próprio entendimento”, para ele, existiam duas fontes principais do conhecimento: a sensibilidade, por meio da qual os objectos são dados na intuição, e o entendimento, por meio do qual os objectos são pensados no conceito.
Então, será que nós estamos a aplicar esta ideia de Kant? Ou a nossa sensibilidade tem sido “anestesiada” com o bombardeamento e a “manipulação mental” da mídia?
O que consigo concluir é que não pensamos mais 100% por nós mesmos, temos opiniões muito rasas baseadas em outras informações que nem sequer nos damos ao trabalho de pensar se podem ser manipuladas ou não.
No entanto, há quem diga que há justificativa para isso, de que a quantidade de informações que nos são expostas no dia-a-dia não nos dão a capacidade e nem tempo de analisar o conteúdo em si, ou seja, alguns poderiam defender que cada pessoa tem direito à sua “verdade pessoal”.
Mas será que é isso mesmo ? Ou também estamos movidos pela preguiça mental ? Eu diria que hoje em dia estamos afastados dos nossos próprios interesses, evitamos pensar profundamente, procurar, e reflectir de forma crítica. Não há evolução em nada sem o esforço do pensamento.
Portanto, é necessário que procuremos mais sobre aquilo que defendemos, que saibamos viver sem as opiniões da internet, construir argumentos sem a necessidade de procurar alguma entidade que pense o mesmo ou que defenda melhor que nós, não podemos mais viver dentro desta bolha digital, temos que nos libertar disso o quanto antes, a sociedade precisa pensar por si mesma, sem achar que se sabe de tudo e com propriedade de fala, ( até porque já dizia Sócrates: “mais inteligente é aquele que sabe que não sabe”), pois sem esse esforço colectivo para tentar descobrir o verdadeiro, a democracia vai se partir.
Por: Lígia Luther