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Ondjila Green: Governo quer 2.000 carregadores e mil autocarros eléctricos, mas o desafio começa nas oficinas

O programa de electromobilidade assinado em Luanda arranca com 240 postos de carregamento, sobretudo na capital. O seu êxito vai depender da formação de técnicos, da manutenção da frota e de um financiamento ainda por detalhar

Angola deu esta semana o primeiro passo formal para electrificar os transportes públicos. O Ministério dos Transportes, o Fundo Soberano de Angola (FSA) e a OPAIA Motors assinaram na segunda-feira, em Luanda, o memorando que cria o programa Ondjila Green. Na primeira fase, o programa prevê a instalação de 2.000 carregadores para veículos eléctricos e a entrada gradual em circulação de pelo menos 1.000 autocarros eléctricos em várias regiões do país.

O acordo foi assinado na abertura da segunda edição do Angola Hub Transporte e Logística Summit (AHTLS 2026) e integra a Estratégia Nacional de Electromobilidade. Pela dimensão das metas, é uma das maiores iniciativas de transição energética apresentadas até agora para o sector dos transportes em Angola.

A rede de carregamento será construída por etapas. Segundo o administrador executivo da OPAIA Motors, Danilo Ventura, os primeiros 240 postos serão instalados sobretudo em Luanda. A empresa e o Fundo Soberano assinaram também um acordo de financiamento para o projecto, cujo valor não foi divulgado.

A lógica é que os carregadores cheguem antes dos autocarros, ou pelo menos ao mesmo tempo. Sem uma rede fiável, os operadores não conseguem planear rotas nem horários, o que é decisivo num serviço de transporte colectivo que depende de viaturas disponíveis todos os dias.

Falta de técnicos é o principal risco

Trocar gasóleo por baterias muda a forma de trabalhar nas oficinas. Motores eléctricos, baterias, carregadores e sistemas de controlo exigem competências que hoje são escassas no país, o que obriga a programas de formação para mecânicos, electricistas e gestores de frota.

A manutenção é um ponto crítico. Um autocarro eléctrico parado por falta de peças ou de técnicos qualificados é um autocarro fora de serviço. Oficinas especializadas e pessoal treinado podem reduzir o tempo de imobilização das viaturas e proteger o investimento. As competências criadas, em áreas como electrónica, software e gestão de energia, poderão depois ser aproveitadas noutros sectores da economia.

Apesar das metas, o programa ainda não tem calendário público nem valor global de investimento. A sua execução depende de estudos técnicos, da escolha dos modelos de implementação, da estruturação financeira e da capacidade da rede eléctrica para suportar a nova procura. Exigirá também coordenação contínua entre o Estado, investidores, operadores, fornecedores de tecnologia e entidades de formação.

Os primeiros projectos servirão de teste: vão mostrar se o modelo funciona no terreno e definir as condições das fases seguintes. Se correr bem, a mobilidade eléctrica poderá abrir espaço a novos negócios, da instalação e gestão de postos de carregamento a serviços de pagamento e manutenção.

Autocarros montados no país

A OPAIA Motors pertence ao Grupo Opaia, fundado em 2002 pelo empresário Agostinho Kapaia. Em Janeiro, o grupo inaugurou na Zona Económica Especial Luanda-Bengo uma fábrica com capacidade para montar anualmente mil autocarros e 22 mil viaturas ligeiras. A meta de mil autocarros do Ondjila Green equivale, assim, a um ano de produção da fábrica. Na altura, o semanário Expansão noticiou que o Estado passaria a comprar viaturas para as instituições públicas à OPAIA Motors e que o grupo tinha recebido cerca de 1,3 mil milhões de euros em contratos públicos por ajuste directo.

O Ondjila Green foi um de três acordos assinados no primeiro dia do AHTLS 2026, a par do apoio da IFC, do Grupo Banco Mundial, à concessão do Corredor Norte e de um memorando com a Hemera Capital Partners para envolver a banca nacional no financiamento de projectos do sector.

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