Negócios

Sonangol no clube dos gigantes africanos.Nove empresas angolanas facturam mais de mil milhões de dólares

Angola é o sexto país do continente com maiores empresas, segundo a McKinsey. A Sonangol, a maior delas, fechou 2025 com lucros em alta, mas cada vez mais dependentes de participações fora do petróleo

África conta com pelo menos 345 empresas com receitas anuais superiores a mil milhões de dólares, e Angola tem nove delas. O número coloca o país em sexto lugar no continente, segundo o relatório de 2023 do McKinsey Global Institute. Em conjunto, estas 345 empresas geram mais de um bilião de dólares (um milhão de milhões) em receitas por ano.

A distribuição geográfica é muito desigual. A África do Sul concentra 147 destas empresas, cerca de 40% do total. Seguem-se o Egipto, com 33, a Nigéria, com 23, Marrocos, com 20, e a Argélia, com 12. Angola, com nove, fica à frente do Quénia, que tem seis.

O relatório conclui que cerca de 230 destas empresas foram criadas no próprio continente, muitas por empreendedores locais, e que 52 são estatais. O universo inclui ainda empresas privadas, cotadas e subsidiárias de multinacionais estrangeiras. A McKinsey sublinha que receitas não equivalem a lucros, a valor acrescentado ou à riqueza distribuída nas economias.

Uma actualização de 2026, divulgada pela publicação Afridigest com base numa apresentação no Africa CEO Forum, aponta para 365 empresas, receitas combinadas de 1,5 biliões de dólares e 55% de empresas africanas. Os números devem ser lidos como estimativa da Afridigest e não como estatística oficial da McKinsey.

Seis sectores concentram 70% das receitas destas grandes empresas: petróleo e gás, mineração, retalho e bens de consumo, serviços financeiros, indústria transformadora e telecomunicações. A diversificação existe, mas os recursos naturais continuam a pesar muito.

O ranking das 500 maiores empresas africanas da Jeune Afrique, publicado em Março, confirma essa tendência. A energia continua a ser o maior contribuinte, com 27% do valor total, à frente da mineração, com 14%. As receitas acumuladas atingiram um recorde de 782,8 mil milhões de dólares, com a argelina Sonatrach e a nigeriana NNPC nos dois primeiros lugares.

Sonangol: lucro em alta apesar do petróleo mais barato

É neste grupo que se destaca a Sonangol, a maior empresa angolana. Em 2025, a petrolífera estatal teve um volume de negócios de 9,1 mil milhões de dólares, menos 13% do que no ano anterior. O preço médio das ramas angolanas caiu 14%, para 69,09 dólares por barril, e a empresa produziu 217 mil barris de petróleo equivalente por dia.

Os números preliminares, divulgados em Fevereiro, apontavam para um lucro de 750 milhões de dólares, uma queda de 11%. O Relatório e Contas definitivo corrigiu esse valor para 946 milhões de dólares, com um EBITDA de cerca de 2,6 mil milhões. Segundo o Conselho Fiscal da empresa, o lucro subiu 17,2% face a 2024, apesar da queda das receitas.

A explicação está fora do negócio petrolífero tradicional. Segundo o semanário Expansão, mais de metade do lucro de 2025 veio de três participações: a Angola LNG, onde a Sonangol detém 22%, o banco português Millennium BCP, com 19,49%, e a Galp, com 16,9% de forma indirecta. Juntas, entregaram 459,4 mil milhões de kwanzas, 53% do lucro do grupo.

A empresa apresenta estes números como prova de que a sua estratégia funciona. A Sonangol considera concluída a reestruturação e defende que depender mais de dividendos e participações a protege das oscilações do petróleo. O retrato não é, porém, só positivo. Os negócios não nucleares continuam a acumular prejuízos, que chegaram a 707,6 mil milhões de kwanzas nos últimos cinco anos, mesmo com a privatização de dezenas de empresas do grupo.

Entrada em bolsa adiada

A grande incógnita para os mercados continua a ser a dispersão do capital em bolsa. A Sonangol mantém a intenção de vender até 30% do capital, de forma faseada, mas o calendário depende de condições que ainda não estão reunidas. Por isso, a operação ficou fora do Programa de Privatizações (PROPRIV 2023-2026).

A operação foi anunciada pela primeira vez para 2022. Entre os obstáculos estão o atraso na reforma dos subsídios aos combustíveis, a reestruturação ainda em curso e a venda de activos não nucleares. A diferença entre o preço de importação dos combustíveis e o preço de venda no mercado interno tem causado perdas significativas à empresa.

Para Angola, a presença de nove empresas no clube dos mil milhões de dólares é um sinal de escala empresarial. O dado revela também a dependência do país, porque a maior dessas empresas continua a ser uma petrolífera pública. O sucesso da diversificação medir-se-á pela capacidade de levar mais empresas não petrolíferas a esse patamar e de transformar receitas em valor acrescentado, emprego e mercado de capitais. Neste último ponto, a entrada da Sonangol em bolsa continua a ser o teste mais aguardado.

 

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