Ciência & Tecnologia

Bill Gates diz que acordo mundial sobre IA será mais difícil do que o controlo nuclear na Guerra Fria

O fundador da Microsoft defende que os Estados Unidos devem liderar a regulação da IA, numa altura em que a Administração Trump rejeita impor regras às empresas do sector

O co-fundador da Microsoft, Bill Gates, considera que chegar a um quadro global de segurança para a inteligência artificial (IA) será mais difícil do que as negociações da Guerra Fria para limitar as armas nucleares. Questionado pela jornalista Kristen Welker, no programa “Meet the Press”, da NBC, sobre se os limites nucleares acordados entre os Estados Unidos e a União Soviética poderiam ser repetidos com a China no domínio da IA, Gates respondeu: “Isto é mais difícil do que aquilo foi”. A entrevista foi gravada na quarta-feira e emitida no domingo.

Para Gates, o perigo mais imediato é o uso da IA por pessoas mal-intencionadas. A tecnologia poderá ajudar a enganar pessoas, paralisar redes eléctricas ou baralhar contas bancárias. O empresário alertou que a IA permite a pequenos grupos realizar acções que antes estavam ao alcance apenas dos maiores países, e defendeu que os governos devem criar salvaguardas contra acontecimentos com vítimas em massa.

Analistas ouvidos pela imprensa internacional ajudam a perceber a comparação. As negociações nucleares envolviam Estados que já possuíam as armas e conseguiam contar ogivas, enquanto a IA é software que se copia, distribui e aperfeiçoa em laboratórios privados e em modelos abertos. Por isso, um acordo bilateral entre Washington e Pequim não bastaria para controlar os riscos.

Em contraste com Trump

As declarações surgem depois de o Presidente Donald Trump ter rejeitado, este mês, os apelos para que o Governo federal impusesse regras às empresas de IA. Numa publicação nas redes sociais, Trump escreveu que quem vencer a corrida da IA ganha tudo e que os Estados Unidos estão à frente da China.

Gates discorda de que a regulação prejudique o país. Argumentou que impor sistemas de monitorização às empresas de IA não enfraqueceria os Estados Unidos na corrida com a China, e mostrou-se confiante de que, depois de ouvir outras vozes, o Presidente acabará por aceitar um consenso. Acrescentou que os laboratórios de IA devem acompanhar de perto a forma como os seus sistemas são usados.

Precedentes históricos

O fundador da Microsoft lembrou que, desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos lideraram, com aliados, acordos globais sobre segurança da aviação, a camada de ozono e as armas nucleares, e defendeu que a IA exige a mesma abordagem, assente na ideia de que toda a humanidade partilha o problema.

Do outro lado do Atlântico, o caminho tem sido diferente. A União Europeia construiu o primeiro quadro legal abrangente do mundo para a IA, com uma abordagem baseada no risco que proíbe sistemas considerados uma ameaça clara à segurança e aos direitos das pessoas.

As palavras de Gates chegam na mesma semana em que líderes das principais empresas tecnológicas e de IA se reúnem com Donald Trump na Casa Branca, num encontro em que a regulação não deverá estar no topo da agenda.

 

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