De costas voltadas com os Estados Unidos por causa das tarifas, o Canadá está a trabalhar com a União Europeia (UE) numa nova aliança, que poderá passar por uma maior integração política e económica entre os dois blocos. O plano deverá ser anunciado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante o debate do Estado da União, que este ano contará com o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, como convidado de honra.
Trata-se do primeiro chefe de Governo de um país fora da UE a marcar presença naquele que é o momento de prestação de contas de Von der Leyen perante os eurodeputados e de definição das prioridades para o ano seguinte. Depois de um ano marcado por sucessivas ameaças de mais tarifas por parte da Administração Trump e pela instabilidade criada pelos norte-americanos no Médio Oriente, a Comissão Europeia pretende marcar pontos ao apresentar uma nova frente de cooperação com um parceiro que partilha com os europeus valores e interesses estratégicos comuns.
O jornal norte-americano The Wall Street Journal chegou a noticiar, durante o fim-de-semana, que estava a ser ponderada a possibilidade de o Canadá se tornar “membro associado” da UE. Porém, Mark Carney já veio rejeitar essa hipótese. “Não estamos a procurar tornar-nos membros da UE”, afirmou o primeiro-ministro canadiano. “O que estamos a procurar — e sobre o qual vamos iniciar conversações — é uma aliança única entre o Canadá e a União Europeia”, disse, acrescentando que o Canadá partilha com a UE “os mesmos valores e prioridades”, tendo ambos “características muito complementares”.
Essa “aliança única” deverá passar por um aprofundamento das relações entre a UE e o Canadá em matérias como o comércio, o investimento e a defesa, reduzindo a dependência de parceiros externos — com destaque para os Estados Unidos, que se tornaram um parceiro menos confiável sob a presidência de Donald Trump — e reforçando a capacidade de resposta conjunta a choques geopolíticos.
A aproximação ganha particular relevância depois de o Canadá e os Estados Unidos terem entrado numa nova guerra comercial, com Otava a responder às tarifas impostas pela Administração Trump com medidas de retaliação. Em simultâneo, a relação entre Bruxelas e Washington tem sido pautada por fortes divergências e sucessivas ameaças de novas tarifas por parte dos Estados Unidos, como aconteceu, por exemplo, quando a UE se recusou a “ceder” a Gronelândia aos norte-americanos.
“Não estamos a procurar tornar-nos membros da UE. O que estamos a procurar — e sobre o qual vamos iniciar conversações — é uma aliança única entre o Canadá e a UE.”
— Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá
Uma parceria de milhares de milhões de dólares desde 2017
Actualmente, a UE e o Canadá já têm laços económicos estreitos, por via do Acordo Económico e Comercial Global (CETA), aplicado a título provisório desde 2017, que permitiu eliminar tarifas sobre 98% dos produtos comercializados e deu às empresas europeias e canadianas a possibilidade de exportarem de forma mais barata e simples. Desde então, as trocas comerciais entre as duas partes aumentaram mais de 70% no caso das mercadorias e cerca de 90% no caso dos serviços.
Uma análise “ex post” feita ao impacto do CETA na economia europeia revela que, graças ao acordo que entrou em vigor em 2017, o PIB da UE aumentou cerca de 3,7 mil milhões de dólares por ano. No ano passado, as trocas comerciais entre a UE e o Canadá ascenderam a mais de 150 mil milhões de dólares, segundo dados do Eurostat. Ao todo, a UE exportou 56,5 mil milhões de dólares em mercadorias e 33,9 mil milhões de dólares em serviços em 2025. Em sentido contrário, importou 38 mil milhões de dólares em mercadorias e 22,7 mil milhões de dólares em serviços.
A UE é o segundo maior parceiro comercial do Canadá, representando 8,7% do comércio total, ficando apenas atrás dos Estados Unidos. Entre os produtos mais exportados pela UE destacam-se maquinaria, automóveis e produtos químicos e farmacêuticos. Já o Canadá é o 12.º maior parceiro comercial da UE, fornecendo sobretudo produtos minerais e maquinaria.
Essa parceria é igualmente benéfica no que toca ao investimento. No final de 2024, o “stock” de investimento directo estrangeiro (IDE) da UE no Canadá era de cerca de 282,5 mil milhões de dólares, enquanto o “stock” de IDE canadiano na UE ascendia a aproximadamente 265,7 mil milhões de dólares.