A partir de hoje, 15 de Setembro, a TAAG – Linhas Aéreas de Angola passa a assegurar, em exclusivo, a venda de bilhetes para a rota Luanda-Cabinda-Luanda através dos seus canais oficiais — call center, lojas da companhia nos aeroportos de Cabinda e no Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, aplicação móvel Flytaag e website. A medida, anunciada em comunicado a 9 de Setembro, resultou de uma articulação entre a companhia aérea e o Governo Provincial de Cabinda, realizada a 18 de Agosto, e pretende pôr fim a uma distorção que se arrasta há anos nesta que é uma das rotas domésticas mais movimentadas — e mais problemáticas — do país.
A ligação Luanda-Cabinda tem sido, nos últimos anos, sinónimo de queixas recorrentes por parte dos passageiros. Por se tratar de um enclave sem ligação terrestre direta ao resto do território nacional, Cabinda depende quase exclusivamente da via aérea (e, secundariamente, marítima) para a mobilidade de pessoas e bens — o que torna a rota particularmente vulnerável a fenómenos de açambarcamento e especulação.
Ao longo de 2025 e início de 2026, sucederam-se episódios de esgotamento de bilhetes em classe económica meses antes das datas de viagem, obrigando passageiros a recorrer a canais paralelos — os chamados “muambeiros” — para conseguir lugar, a preços que, segundo denúncias recolhidas pela imprensa angolana, chegaram a ultrapassar os 100 mil kwanzas, ou mesmo os 450 mil kwanzas em classe executiva em julho deste ano, mais de 15 vezes acima da tarifa subsidiada. A própria TAAG chegou a admitir, através do seu então presidente da comissão executiva, Nelson Oliveira, que parte do problema resultava de agências e mesmo de colaboradores da companhia que esgotavam bilhetes para os revenderem fora dos canais oficiais.
O que muda a partir de agora
Segundo a TAAG, a nova medida visa “repor a normalidade” e assegurar “maior controlo e transparência” na comercialização de bilhetes para Cabinda, combatendo situações de intermediação comercial que, segundo a companhia, distorciam o processo de venda e afastavam-se dos procedimentos comerciais definidos. A operação aérea em si mantém-se inalterada: a frequência de voos e a tarifa em vigor não sofrem alterações, e a viagem de ida e volta em classe económica continua subsidiada, fixada em 29.717 kwanzas.
Um comunicado institucional divulgado na sequência do anúncio da TAAG classifica a decisão como “uma resposta firme e necessária às dificuldades que, durante demasiado tempo, afectaram os passageiros”. O texto sublinha que a disponibilização de mais de 9.800 lugares até ao final do ano representa “um benefício imediato e concreto para os cidadãos”, permitindo um acesso mais direto à tarifa oficial subsidiada, maior transparência sobre os lugares disponíveis e melhores condições de planeamento de viagem.
O comunicado reconhece a medida como um sinal de “capacidade de decisão, sentido de responsabilidade e foco no passageiro” por parte da Comissão Executiva da TAAG, mas alerta que o verdadeiro teste está na sua execução: será necessário consolidar o avanço, garantindo a estabilidade dos canais digitais, a regularidade dos voos e a criação de mecanismos que protejam os cidadãos com menor acesso a plataformas eletrónicas — um factor crítico numa província onde nem toda a população dispõe de acesso fácil à internet ou a meios de pagamento digitais.
A centralização da venda nos canais oficiais resolve, em teoria, o problema da intermediação — mas não elimina, por si só, o desequilíbrio estrutural entre procura e oferta que tem marcado esta rota, nem garante automaticamente que a digitalização do processo não venha a excluir os passageiros com menor literacia digital ou acesso limitado a smartphones e internet estável.