O mercado de capitais angolano está em franco desenvolvimento e mantém um elevado potencial de crescimento, bem como de diversificação de instrumentos de investimento, defende o presidente da comissão do mercado de capitais. Em entrevista exclusiva à revista Rumo no âmbito do 5.º Fórum Mercado de Capitais, a realizar dia 23 de Setembro em Luanda, Elmer Serrão faz o balanço dos últimos anos e aponta os desafios, os riscos e os próximos passos de um mercado em maturação.
O gestor destaca na entrevista, de que o Mercado publica excertos, que o mercado de capitais angolano se encontra num momento de transformação estrutural. Não é apenas crescimento — é consolidação. “A fase que o mercado atravessa deve ser percepcionada como um processo de consolidação, e não apenas de expansão”, afirma Nos últimos quatro anos, lembra, o ecossistema evoluiu de forma decisiva: o número de intermediários especializados passou de 4 para 24, as ofertas públicas de acções aumentaram de 2 para 6, os OIC cresceram de 34 para 75 e os fundos de capital de risco financiaram sectores reais da economia, movimentando mais de Kz 133 mil milhões.
Para o Presidente da CMC, a maturidade do mercado mede se pela confiança, pela liquidez e pela regularidade com que as empresas o procuram. “A maturidade de um mercado não se mede pela dimensão das operações realizadas”, sublinha, destacando que o desafio central continua a ser o alargamento da base de investidores e a atracção de novos emitentes.
A supervisão acompanha esta evolução com uma mudança de paradigma: digitalização, vigilância baseada no risco e reforço da solvabilidade dos intervenientes. Elmer Serrão resume o desafio: “Acompanhar o mercado com a mesma velocidade e o mesmo grau de sofisticação com que ele próprio se transforma.” Com plataformas como o SIRA, SIVM e SILA, a CMC inaugura uma nova geração de supervisão mais preventiva e analítica.
Os riscos identificados — desde a independência da auditoria à ausência de notação de risco doméstica — são, segundo o PCA, sinais naturais de crescimento. “Os riscos no nosso mercado não devem ser necessariamente interpretados como fragilidades estruturais.” A meta de Angola sair da lista do GAFI até 2027 reforça esta agenda de integridade.
No plano internacional, Angola já cumpre pilares essenciais dos Princípios IOSCO, mas a convergência é vista como um processo contínuo. “A convergência com padrões internacionais deve ser entendida como um processo de aperfeiçoamento permanente”, enfatiza Elmer Serrão.
O gestor revela que o Plano Estratégico 2023–2027 apresenta uma execução de 70% e já produziu mudanças profundas: novo modelo de funcionamento do mercado, expansão das plataformas de home broker e crescimento das contas activas. As prioridades até 2027 incluem a consolidação da agenda ESG, a entrada em vigor do Regime Jurídico das EFI e a automatização integral da supervisão.
Quanto à OPV da Unitel, marcou um ponto de viragem, captando Kz 300,3 mil milhões e democratizando o acesso ao mercado. “A sua importância ultrapassa largamente os montantes envolvidos”, sintetiza.
Para Elmer Serrão, o futuro exige confiança, responsabilidade e profundidade. “Mais do que melhorar indicadores, trata-se de assegurar que o mercado mobilize poupança, financie empresas e apoie o desenvolvimento económico do País”, diz.
Entrevista: Ricardo David Lopes