Cultura

Arcebispo de Saurimo, D. José Manuel Imbamba, apela ao perdão entre famílias, povos e nações em Fátima

O presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), D. José Manuel Imbamba, fez do perdão o centro da sua homilia na Missa Internacional Aniversária deste domingo, 13 de Setembro, no Santuário de Fátima, apelando à reconciliação nas famílias, nas comunidades e entre países, incluindo o perdão de “dívidas injustas” impostas pelas nações mais poderosas às mais pequenas.

D. José Manuel Imbamba, arcebispo de Saurimo, presidiu à Peregrinação Internacional Aniversária de Setembro à Cova da Iria, que decorreu ao longo de sábado e domingo e evoca a quinta aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos, ocorrida a 13 de Setembro de 1917. Nascido a 7 de Janeiro de 1965 em Luena, na província angolana do Moxico, o prelado foi ordenado sacerdote em 1991 na Diocese de Luena — tornando-se o primeiro sacerdote natural dessa terra — e doutorou-se mais tarde em Filosofia, com especialização em Antropologia Filosófica, na Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma.

Na homilia da Missa Internacional, celebrada perante milhares de peregrinos no Recinto de Oração da Cova da Iria, o arcebispo angolano partiu da passagem evangélica em que o apóstolo Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar uma ofensa, recebendo como resposta “até setenta vezes sete” — uma fórmula que, segundo D. Imbamba, não pretende fixar um limite matemático, mas antes sublinhar que tudo o que provém de Deus, incluindo o perdão, “é ilimitado”.

“Quem vive para a vingança fica prisioneiro do passado”

“Quem experimenta a imensidão do perdão de Deus não pode transformar o próprio coração num tribunal com direito de julgar e condenar os outros sem piedade e sem hipótese de regeneração”, afirmou o arcebispo, acrescentando que “o rancor e a raiva são sentimentos que nos corroem por dentro, tiram-nos a paz e destroem a qualidade da nossa vida”. “Quem vive para a vingança fica prisioneiro do passado”, sublinhou.

D. Imbamba fez, no entanto, questão de distinguir perdão de esquecimento ou de resignação perante a injustiça. “Perdoar não significa aprovar o erro, ou dizer que a injustiça não existiu. Quem magoou, magoou mesmo. O que doeu, doeu mesmo. Perdoar não é fingir amnésia, nem apagar a verdade”, declarou, notando ainda que perdoar “não significa obrigatoriamente que a convivência volte a ser exactamente a mesma de antes”. Ainda assim, defendeu, “o perdão impede que a minha dor passe a gerir a minha vida”.

O arcebispo de Saurimo traçou uma distinção entre “lembrar de uma ferida e viver em torno dessa ferida”: lembrar com a cicatriz já curada “é sabedoria”, disse, mas “viver a sangrar a mesma ferida é escravidão”. Para D. Imbamba, o perdão “não é um sentimento”, mas antes “uma tomada de decisão” que, embora não mude o passado, “tem o poder de libertar e transformar o nosso presente e o nosso futuro”.

Da parábola do rei misericordioso às “dívidas injustas” entre nações

Recorrendo à parábola evangélica do rei que perdoou uma dívida incalculável a um servo, o qual, por sua vez, se recusou a perdoar uma dívida insignificante que lhe era devida, o arcebispo angolano alargou a reflexão à esfera internacional. “Infelizmente, não se está longe desta maneira de proceder nas famílias, nas relações e na sociedade”, afirmou, acrescentando que basta observar “como alguns países poderosos sufocam e deprimem os países pequenos através das dívidas injustas”.

D. Imbamba sublinhou ainda que muitas famílias e comunidades não se destroem apenas por causa de grandes tragédias, mas antes pelo “acúmulo silencioso de pequenas mágoas não resolvidas, palavras guardadas e ressentimentos alimentados e recalcados” — um desgaste que, disse, tira a paz interior e atrofia o convívio pessoal e social.

Questionando o que fazer quando “o golpe é profundo” ou quando a ferida é aberta dentro da própria casa, por um cônjuge ou um filho, o arcebispo reconheceu a dificuldade do perdão nas situações mais dolorosas, sem deixar de reafirmar a sua necessidade. Recordando o papel de Maria como “coração de mãe” que reflecte a misericórdia de Deus, D. Imbamba confiou à Virgem de Fátima as famílias e o mundo “feridos pela falta de humildade e de perdão”, os lares divididos, os casamentos desgastados e os irmãos desavindos, pedindo “pela paz no mundo inteiro” — uma paz que, disse, só pode nascer de “corações reconciliados que sabem renunciar ao ciclo do ódio e da vingança”.

No final da celebração, o reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, agradeceu a presença de D. Imbamba e assegurou as orações dos peregrinos pela sua missão em Angola, reforçando também o apelo a “corações reconciliados” e insistindo no convite, deixado por Nossa Senhora em Fátima, à oração pela paz no mundo.

A Peregrinação Internacional Aniversária de Setembro, penúltima grande peregrinação de 2026 ao santuário mariano, contou com a concelebração de um cardeal — D. António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima —, quatro bispos, 85 sacerdotes e dois diáconos, e reuniu dezenas de milhares de peregrinos ao longo dos dois dias de celebrações.

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