Internacional

Crédito privado triplica em África mas continua a pesar pouco no financiamento global

O crédito privado está a crescer a um ritmo acelerado em África, à medida que empresas e projectos de infraestruturas procuram alternativas ao financiamento bancário tradicional, cada vez mais limitado. Segundo um relatório divulgado esta semana pela agência de notação financeira Moody’s, os empréstimos concedidos por fundos de investimento e outros investidores não-bancários mais do que triplicaram em cinco anos, passando de 1,8 mil milhões de dólares em 2020 para 5,6 mil milhões de dólares no final de 2025.

Apesar do salto expressivo, o valor continua a representar uma fatia praticamente residual do mercado global: apenas 0,3% dos 1,8 biliões de dólares que compõem o mercado mundial de crédito privado, segundo a mesma análise.

O relatório da Moody’s atribui esta expansão a factores estruturais que continuam a marcar o sistema financeiro africano. Os bancos do continente enfrentam fortes condicionantes para financiar projectos de longo prazo, resultantes do peso do endividamento dos próprios governos nas suas carteiras e da escassez de poupança doméstica disponível para ser canalizada para crédito. A isso soma-se um mercado de capitais ainda pouco desenvolvido: segundo o relatório, a capitalização bolsista em todo o continente representava, em 2024, apenas cerca de 33% do Produto Interno Bruto, um valor muito abaixo da média dos mercados emergentes (61%) e da média mundial (113%).

Nesse contexto, os fundos de crédito privado têm vindo a preencher progressivamente o espaço deixado pelos bancos, sobretudo no financiamento de projectos de infraestruturas, de médias empresas e de negócios que, de outra forma, teriam dificuldade em aceder a financiamento de longo prazo. A Moody’s ressalva, no entanto, que não espera que estes fundos se tornem concorrentes directos da banca africana; pelo contrário, a tendência é a de uma actuação complementar, com os gestores de crédito privado a emprestar frequentemente através dos próprios bancos ou a co-financiar operações em conjunto com estes — um modelo particularmente relevante no sector das infraestruturas, onde as necessidades de financiamento ultrapassam largamente a capacidade de qualquer financiador isolado.

Agrupar risco para atrair investidores institucionais globais

Para os autores do relatório, a maior oportunidade de crescimento do sector pode não estar tanto no crescimento orgânico dos fundos actuais, mas antes na criação de estruturas que agrupem vários empréstimos africanos num único instrumento financeiro. Nesse modelo, instituições de financiamento para o desenvolvimento poderiam assumir parte do risco associado a esses empréstimos, tornando a fatia remanescente — mais segura — atractiva para fundos de pensões, seguradoras e outros grandes investidores institucionais globais que, de outra forma, tenderiam a evitar o risco associado aos chamados mercados de fronteira.

A Moody’s acredita que este tipo de estruturas poderá vir a atrair volumes de capital privado muito superiores aos actuais para o continente africano. A agência sublinha, contudo, que alcançar essa escala vai depender da capacidade do sector em demonstrar retornos consistentes, ajustados ao risco, que se mantenham competitivos face a outras oportunidades de investimento disponíveis a nível global — um desafio nada trivial, tendo em conta as preocupações que muitos investidores continuam a manifestar em relação ao risco dos mercados de fronteira e ao histórico, por vezes irregular, do desempenho de fundos de investimento privado focados em África.

O crescimento do crédito privado surge como uma resposta possível a um dos principais estrangulamentos ao desenvolvimento económico do continente: o défice de financiamento para infraestruturas, que o Banco Africano de Desenvolvimento estima poder atingir até 100 mil milhões de dólares por ano. Caso as estruturas de agrupamento de risco propostas pela Moody’s ganhem tracção, o crédito privado poderá tornar-se uma fonte relevante de financiamento de longo prazo para projectos de infraestruturas e para empresas que os bancos tradicionais, por limitações estruturais ou por opção própria, não conseguem ou não querem financiar — incluindo, potencialmente, em mercados como o angolano, onde o acesso a financiamento bancário de longo prazo continua a ser apontado por empresários e investidores como um dos principais obstáculos ao investimento produtivo.

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