Negócios

EUA emprestam 100 milhões de dólares à Africell para travar avanço da Huawei em África

Ziad Dalloul, presidente executivo da Africell Holding Limited

A administração Trump vai emprestar cerca de 100 milhões de dólares à Africell, a única operadora de telecomunicações de capital norte-americano a operar em África, numa aposta declarada de Washington para travar a expansão da gigante chinesa Huawei no continente. O anúncio, feito através do Export-Import Bank dos Estados Unidos (EXIM), surge num momento de rivalidade cada vez mais acesa entre as duas superpotências pela influência económica e tecnológica em África.

De acordo com um comunicado divulgado na semana passada e avançado pela Reuters, o financiamento — na prática, 99,6 milhões de dólares — vai permitir à Africell “investir na mais recente tecnologia de redes móveis junto de fornecedores norte-americanos e aliados”. A empresa, que opera em Angola, na República Democrática do Congo, na Gâmbia e na Serra Leoa, confirmou à Semafor que o empréstimo lhe vai permitir “continuar a expandir-se de forma ambiciosa em Angola”.

Ziad Dalloul, presidente executivo da Africell Holding Limited, saudou o acordo, sublinhando o crescimento acelerado da operadora em Angola e na RD Congo, bem como a liderança de mercado que já detém há mais tempo na Serra Leoa e na Gâmbia como prova dos benefícios que a tecnologia, as competências e o investimento norte-americanos podem trazer a África. Embora os comunicados oficiais não mencionem directamente a China, a Reuters recorda que a iniciativa se insere na estratégia mais ampla de “rede limpa” da administração Trump, que visa remover equipamento de telecomunicações chinês — em particular da Huawei — dos Estados Unidos e dos países aliados, por razões de segurança que a empresa chinesa contesta. A Huawei detém actualmente uma quota estimada de cerca de 52% do mercado de dados móveis 5G em África. A embaixada da China em Washington reagiu afirmando que o investimento chinês em África tem impulsionado o crescimento económico no continente e é bem acolhido pelas populações locais.

Não é a primeira vez que a Africell recebe apoio financeiro de Washington: em 2018, a empresa já tinha beneficiado de um empréstimo de 100 milhões de dólares concedido pela então Overseas Private Investment Corporation, hoje integrada na U.S. International Development Finance Corporation.

Minerais críticos: a outra frente da disputa com Pequim

A rivalidade entre Washington e Pequim por influência em África não se limita às telecomunicações. Esta semana, os Estados Unidos anunciaram também que vão apoiar o desenvolvimento de uma importante unidade de processamento de minerais críticos no Quénia, país que se acredita albergar depósitos por explorar avaliados em dezenas de milhares de milhões de dólares, sobretudo de terras raras e nióbio — um metal usado na indústria aeroespacial —, concentrados no depósito costeiro de Mrima Hill.

Frank Garcia, secretário-adjunto de Estado norte-americano para África, afirmou que os minerais críticos são “uma prioridade máxima” para o Presidente Donald Trump e para o secretário de Estado Marco Rubio, sublinhando que Washington defende um modelo de desenvolvimento mineiro que inclua processamento local e criação de valor acrescentado nos próprios países produtores — numa crítica implícita à China, acusada por vários governos e organizações de retirar minerais em bruto de África para os processar no estrangeiro, uma acusação que Pequim rejeita.

O Quénia possui ainda depósitos significativos, ainda por explorar, de outros minerais essenciais às infra-estruturas de energias renováveis e às tecnologias digitais, como cobre, grafite, lítio e níquel. Segundo a imprensa internacional, as empresas norte-americana Critical Metals Corp e a australiana RareX já foram pré-seleccionadas para concorrer ao desenvolvimento do depósito de Mrima Hill, embora o Governo queniano não tenha ainda publicado oficialmente a lista de concorrentes.

Um trunfo político para Ruto a caminho da reeleição

O entendimento com Washington representa um reforço político importante para o Presidente queniano, William Ruto, que tem vindo a estreitar relações com líderes ocidentais e fez do processamento local dos recursos naturais um dos eixos centrais da sua candidatura à reeleição, nas eleições marcadas para o próximo ano. Ruto tem defendido publicamente que os minerais críticos do país “já não podem ser exportados e processados noutros locais”, devendo antes gerar valor acrescentado dentro das fronteiras nacionais — uma posição que, segundo o próprio, pretende agora estender a todas as futuras parcerias do país com potências estrangeiras.

Em conjunto, os dois anúncios — o empréstimo à Africell e o apoio ao sector mineiro queniano — ilustram a intensificação da disputa entre Washington e Pequim por influência económica em África, um continente que ambas as potências veem cada vez mais como terreno estratégico para a próxima década, seja no acesso a matérias-primas críticas, seja no controlo das infra-estruturas digitais do futuro.

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