O homem mais rico de África, Aliko Dangote, fixou o investimento mínimo na oferta pública inicial (IPO) da sua megarefinaria em apenas quatro dólares, numa tentativa de atrair investidores de retalho para aquela que poderá tornar-se uma das maiores operações de sempre nos mercados accionistas do continente.
A Dangote Petroleum Refinery and Petrochemicals vai colocar em bolsa 4,1 mil milhões de acções ordinárias, a 525 naira (cerca de 0,40 dólares) cada, permitindo a subscrição de apenas dez acções, no valor de 5.250 naira — o equivalente aos referidos quatro dólares. A operação, que arranca a 14 de Setembro e encerra a 14 de Outubro, deverá arrecadar cerca de 2,15 biliões de naira (aproximadamente 1,6 mil milhões de dólares), avaliando a refinaria em cerca de 49 mil milhões de dólares, naquela que se perfila já como a maior oferta pública inicial de sempre em África.
O presidente executivo do grupo Dangote, Aliko Dangote, apresentou os termos da oferta na segunda-feira, numa cerimónia em Lagos, sublinhando que a estrutura de preços foi deliberadamente concebida para promover a inclusão financeira e incentivar a poupança de longo prazo entre os cidadãos comuns em toda a África, tendo classificado a operação como uma “IPO para o povo”. Segundo o presidente executivo da Dangote Petroleum Refinery, David Bird, a estratégia representa uma mudança significativa face ao modelo tradicional das grandes ofertas públicas, habitualmente dominadas por investidores institucionais e indivíduos com elevado património.
Para tornar esta ambição possível, a Dangote recorreu a empresas regionais de tecnologia financeira (fintech), permitindo que a subscrição seja feita de forma totalmente digital — através de aplicações bancárias, plataformas fintech, terminais de pagamento e corretoras — naquela que é apontada como a primeira oferta pública totalmente digital da história do mercado nigeriano. Segundo o director-geral da Vetiva Capital Management, Chuka Eseka, esta estrutura foi “deliberadamente concebida para garantir que qualquer nigeriano, esteja onde estiver, tenha a oportunidade de subscrever esta oferta”. A empresa pretende, com esta estratégia, atrair até dez milhões de investidores de retalho — cerca de 20 vezes o actual recorde de participação de pequenos investidores no mercado nigeriano —, incluindo um esquema de incentivo que prevê a atribuição de até duas acções bónus a investidores que cumpram um determinado período mínimo de detenção dos títulos.
Historicamente, os investidores de retalho africanos têm ficado à margem dos mercados de capitais do continente, em parte devido aos elevados custos de transacção, segundo um relatório recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Contudo, a expansão das empresas de tecnologia financeira em toda a África tem vindo a abrir novas oportunidades a milhões de pequenos investidores, numa altura em que as bolsas de valores do continente têm registado retornos extraordinários: segundo a publicação The Africa Report, as bolsas de Abidjan, Acra, Lagos e Tunes acumulam, até ao momento, subidas entre 46% e 71% este ano.
Construída ao custo de cerca de 20 mil milhões de dólares, a refinaria Dangote tem uma capacidade actual de processamento de 650 mil barris de petróleo por dia, com planos de expansão para 1,4 milhões de barris diários até 2028 — um projecto já totalmente financiado, segundo a empresa, através de uma colocação privada anterior de 2,5 mil milhões de dólares. Os fundos angariados na presente oferta pública destinam-se sobretudo a apoiar o programa de investimento de capital da refinaria. “Isto não é apenas uma refinaria e um complexo petroquímico. É verdadeiramente uma plataforma energética pan-africana”, afirmou David Bird. A transacção obteve ainda certificação de conformidade com a lei islâmica (Sharia), tornando-a acessível também a investidores que procuram opções de financiamento islâmico.