O conselho de supervisão da Volkswagen aprovou esta quinta-feira, por unanimidade, o plano de reestruturação da empresa, que prevê o corte de mais 50.000 postos de trabalho e a reformulação da oferta de automóveis, anunciou a empresa em comunicado. Trata-se da maior reestruturação da história de 89 anos do fabricante automóvel alemão, e reforça significativamente o mandato do CEO Oliver Blume para remodelar a maior construtora automóvel europeia.
A fabricante automóvel alemã anunciou que o conselho aprovou a reestruturação abrangente para melhorar a eficiência e a competitividade, apoiando os planos de Blume. O conselho aprovou o chamado “Plano Futuro 2030” numa reunião em Wolfsburgo, realizada um dia antes do previsto.
A empresa adiantou num comunicado subsequente que o plano prevê o corte de mais 50.000 empregos — cerca de 8% do total da força de trabalho global do grupo no final do ano passado —, o que coloca o total esperado das reduções de postos de trabalho em 100.000, contabilizando as rescisões já anunciadas desde o final de 2024. O número supera as 50.000 rescisões feitas pela General Motors na sequência da sua falência de 2009, tornando-se a maior reestruturação de sempre na indústria automóvel mundial.
“Tendo em conta a intensificação da concorrência global, a mudança na procura e a alteração tecnológica na indústria automóvel, um alinhamento consistente da força laboral com a realidade económica é essencial”, refere o comunicado.
Quatro fábricas alemãs sem produção garantida a partir de 2031
A empresa também vai reduzir a gama de automóveis em 50% até 2035, diminuir a complexidade da oferta em 75% e deverá encerrar quatro fábricas na Alemanha, para as quais vai procurar outras utilizações. Segundo a Volkswagen, o grupo reconhece um excesso de capacidade produtiva anual de cerca de 500.000 veículos na Europa, e as unidades de Emden, Hanôver, Neckarsulm e Zwickau não têm, actualmente, produção competitiva assegurada depois de os modelos em curso terminarem o seu ciclo de vida, entre 2031 e 2034. O acordo não determina, para já, o encerramento imediato de nenhuma das fábricas, ficando a exploração de utilizações alternativas para essas unidades a cargo da empresa.
O plano inclui ainda uma simplificação da estrutura conglomerada da Volkswagen, bem como limites à influência do próprio conselho de supervisão — onde sindicatos e o Land da Baixa Saxónia detêm maioria — sobre decisões-chave. O conselho pediu à comissão executiva que desenvolva um modelo de estrutura de decisão e de grupo mais moderno, com limiares de aprovação a ajustar de acordo com as práticas habituais no sector.
As propostas de Blume enfrentaram, nos últimos meses, forte resistência por parte dos representantes dos trabalhadores e do governo da Baixa Saxónia — que detém 20% dos direitos de voto da Volkswagen e dois lugares no conselho de supervisão. As líderes sindicais Christiane Benner e Daniela Cavallo afirmaram ter “evitado uma escalada perigosa do conflito”, sublinhando que nenhuma fábrica foi abandonada e que ficou fora de cima da mesa uma proposta de separação entre a marca de automóveis de passageiros Volkswagen e o negócio de componentes.
Do outro lado, a família Porsche-Piëch, que controla a maioria dos direitos de voto da Volkswagen através da Porsche SE, tem pressionado por uma acção mais rápida, num momento em que os retornos e os fluxos de dividendos do grupo estão sob pressão. Blume tem argumentado que a Volkswagen já não pode continuar a suportar a mesma estrutura de custos e o mesmo peso industrial, ao mesmo tempo que financia investimentos em veículos elétricos, baterias e software.
Meta de margem operacional de 9% até 2030
Com esta reestruturação, a empresa pretende atingir uma margem operacional de 9% até 2030 — sobre vendas anuais estimadas em cerca de nove milhões de veículos —, o que corresponde a um resultado operacional de 31 mil milhões de euros, com 37 mil milhões em custos e um alvo de investimento de 135 mil milhões de euros, incluindo investigação e desenvolvimento, entre 2027 e 2031.
A decisão reforça o mandato de Blume para avançar com as alterações que a administração e o conselho de supervisão dizem ser essenciais para combater a subida dos custos, a fraca procura e a intensificação da concorrência — sobretudo por parte dos fabricantes chineses, que têm ganho terreno acelerado tanto no mercado europeu como no mercado global de veículos elétricos.