Internacional

Putin admite acordo “possível” para acabar guerra e Kiev fala em “nova dinâmica” nas negociações de paz

O Presidente russo, Vladimir Putin, sugeriu esta quinta-feira que é possível chegar a um acordo para pôr fim à guerra na Ucrânia, enquanto Kiev previu uma “nova dinâmica” nos esforços de paz — uma mudança de tom notória em ambos os lados que pode abrir uma janela para progressos diplomáticos, depois de mais de quatro anos e meio do conflito mais mortífero na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

“Há uma oportunidade? Na minha opinião, sim, existe”, afirmou Putin, que discursava no Fórum Económico Oriental, em Vladivostok, no extremo leste da Rússia. O líder russo referiu que vários países, incluindo os Estados Unidos e a China, estão dispostos a apoiar um acordo de paz, ainda que tenha sublinhado que “o problema tem de ser resolvido, no essencial, pelos países envolvidos no conflito — Rússia e Ucrânia”. Putin acrescentou que os contactos com a Ucrânia continuam a decorrer, “sobretudo através de canais de inteligência”, ainda que tenha admitido dificuldade em avaliar até que ponto esses contactos estão a conduzir a um acordo de paz, face às declarações mais recentes da liderança ucraniana.

Do lado ucraniano, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrii Sybiha, disse aos jornalistas em Kiev acreditar que “vamos agora ter uma nova dinâmica nos esforços de paz, com o regresso desta fase ativa de envolvimento político e diplomático em várias capitais do mundo”.

Enviados norte-americanos esperados em Moscovo e Kiev nos próximos dias

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, confirmou esta quinta-feira que espera receber em Kiev, “nos próximos dias”, os enviados especiais do Presidente norte-americano Donald Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, que deverão também deslocar-se a Moscovo. Seria a primeira visita dos dois enviados à capital ucraniana, depois de várias viagens à Rússia para se encontrarem com Putin e outros altos responsáveis russos. “Há datas preliminares. Esperamos ver aqui em Kiev representantes do Presidente dos Estados Unidos”, disse Zelensky, citado pela Reuters, na sua alocução noturna. A deslocação sugere que Washington — que nos últimos meses tinha desviado parte da sua atenção diplomática para o conflito no Irão — está a renovar os esforços para encerrar a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, num momento em que ambos os lados intensificam campanhas aéreas cada vez mais mortíferas, com ataques recíprocos a infraestruturas civis e militares.

Turbulência política em Kiev, com destituições de alto nível e escândalos de corrupção

A mudança de tom na diplomacia surge num momento particularmente conturbado para Zelensky no plano interno. O Presidente ucraniano tem enfrentado, nas últimas semanas, uma sucessão de escândalos de corrupção que já atingiram figuras próximas do seu gabinete — incluindo o afastamento, em agosto, da vice-chefe do gabinete presidencial, Iryna Mudra, depois de investigadores anticorrupção a terem associado a um alegado esquema de branqueamento de capitais avaliado em 3,4 milhões de dólares, ligado ao pagamento de uma fiança num processo de corrupção que já tinha custado o cargo aos ministros da Justiça e da Energia ucranianos.

Essa turbulência interna ganhou um novo e insólito capítulo esta semana, depois de unidades rivais dos serviços de informações ucranianos terem trocado tiros nas ruas de Kiev. O confronto, ocorrido na madrugada de 2 de setembro numa rua residencial no distrito de Dnipróvskyi, opôs agentes do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) a elementos da Direção de Informações Militares (conhecida como GUR ou HUR), alegadamente na sequência de um diferendo sobre a detenção de um comandante adjunto do Corpo de Voluntários Russo, uma unidade de combatentes russos que luta ao lado das forças ucranianas. Três elementos dos serviços de informações militares ficaram feridos no confronto, que Zelensky classificou publicamente de “absolutamente vergonhoso”, exigindo uma investigação “minuciosa e imparcial”. Na sequência do incidente, o Presidente ucraniano demitiu o chefe do departamento de Proteção de Segredos de Estado do SBU, Oleh Khramov.

O episódio, amplamente divulgado nas redes sociais ucranianas, expôs publicamente as fraturas internas entre agências de segurança rivais num momento em que Kiev tenta simultaneamente segurar a frente militar, conter a instabilidade política doméstica e reabrir uma janela diplomática que, até há poucos dias, parecia praticamente fechada.

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