Enquanto um artigo de grande destaque na revista norte-americana The Atlantic — juntando-se a vários outros publicados nos últimos meses — defende que a leitura está em declínio terminal, prejudicada por tecnologias que oferecem alternativas de “comida de plástico” para a mente e encurtam a nossa capacidade de concentração, os livreiros dos Estados Unidos ainda não estão a lamentar a morte da leitura. Pelo contrário: os números do setor sugerem precisamente o oposto.
O artigo em causa, intitulado “The End of Reading Is Here” (“O Fim da Leitura Chegou”), da autoria da jornalista Rose Horowitch, foi capa da edição de agosto da revista e tornou-se o mais recente de uma série de textos, publicados ao longo dos últimos dois anos, a proclamar que os Estados Unidos entraram numa era “pós-literária”. Em resposta, o site norte-americano de desporto e cultura Defector foi ao terreno e entrevistou 21 livreiros de várias cidades norte-americanas — e nenhum deles confirmou o diagnóstico de morte anunciada da leitura.
“A cultura de leitores aqui é maior do que nunca”, afirmou Fernando Flores, livreiro na loja Alienated Majesty Books, em Austin, no Texas, citado pela reportagem do Defector. Flores foi um dos primeiros a criticar publicamente o artigo da The Atlantic por não ter ouvido nenhum livreiro — um grupo que, segundo argumentou, tem uma visão privilegiada sobre o verdadeiro estado da leitura nos Estados Unidos, precisamente por depender dela para sobreviver.
Essa mesma observação foi corroborada pelos outros 20 livreiros ouvidos pela publicação. Emerson Perper, que geriu durante anos a livraria Curious Iguana, em Frederick, no estado de Maryland, e atualmente dirige a livraria The Head and the Hand, na Filadélfia, foi direto: “todos os anos, em cada loja, os lucros, a assistência a eventos e o movimento de clientes aumentam. Não é o mesmo número de pessoas a gastar cada vez mais dinheiro. Há mais pessoas.”
Os números confirmam a tendência
A perceção destes profissionais está sustentada em dados concretos do sector. Segundo o relatório anual da Associação Norte-Americana de Livreiros (American Booksellers Association), citado pelo Defector, abriram 605 novos negócios de livrarias nos Estados Unidos no ano passado — sejam lojas físicas, pop-ups ou plataformas online dedicadas à venda de livros —, contra apenas 65 que fecharam portas. O número de novas lojas abertas subiu 87% face a 2024.
Também as receitas das editoras e o total de unidades vendidas têm crescido praticamente todos os anos desde 2021, segundo dados divulgados pela publicação especializada Publishers Weekly. As vendas do sector editorial norte-americano atingiram 33,4 mil milhões de dólares em 2025, com as livrarias físicas a registarem o maior crescimento de todos os canais de venda — mais 6%, para cerca de cinco mil milhões de dólares —, impulsionadas em parte pela abertura de mais lojas da cadeia Barnes & Noble e de livrarias independentes por todo o país.
Ainda assim, a maioria dos livreiros entrevistados pelo Defector não nega que exista, de facto, algum tipo de crise em torno da leitura nos Estados Unidos — apenas discordam da forma como ela é habitualmente descrita. Kris Kleindienst, que há 52 anos trabalha como livreira e é proprietária da Left Bank Books, em St. Louis, defendeu que a verdadeira crise “é apenas parte de uma crise maior, feita em partes iguais de ganância corporativa desenfreada e fascismo desenfreado”. Já Josh Cook, coproprietário da Porter Square Books, em Cambridge, no estado do Massachusetts, apontou o dedo a décadas de ataques ao ensino público através da proibição de livros, e a um modelo económico que, segundo disse, “desvia todo o dinheiro dos escritores e leitores para a classe proprietária” — incluindo, acrescentou, o uso não autorizado de obras protegidas por direitos de autor para treinar programas de inteligência artificial concebidos para substituir escritores.
Para muitos destes profissionais, é precisamente nas próprias livrarias — cada vez mais transformadas em espaços comunitários, com clubes de leitura, eventos com autores e workshops de escrita — que reside a resposta a essa alienação e à erosão da capacidade de concentração de que os textos mais pessimistas se queixam. “As pessoas não estão apenas a entrar para comprar um livro, estão a entrar para pertencer a uma comunidade literária”, resumiu Katy Lemieux, coproprietária da livraria Talking Animals Books, no Texas, uma das muitas lojas abertas já depois da pandemia de covid-19.