A Nvidia confirmou esta quinta-feira a compra da Hugging Face, a maior plataforma mundial de partilha de modelos de inteligência artificial de código aberto, num negócio avaliado em cerca de 13 mil milhões de dólares (12,9 mil milhões, segundo o comunicado oficial da empresa). É a segunda maior aquisição de sempre da fabricante de chips, atrás apenas do acordo de 20 mil milhões de dólares fechado com a Groq no final do ano passado, e confirma a ambição da Nvidia em deixar de ser vista apenas como fornecedora de hardware para se tornar também protagonista na camada dos modelos de IA.
Com a operação, a Nvidia passa a ter acesso a mais de três milhões de modelos de IA e a uma comunidade de mais de 18 milhões de programadores, investigadores e criadores que utilizam a Hugging Face — além de mais de 200 mil empresas que recorrem à plataforma para descobrir e implementar soluções de IA. O presidente executivo da Nvidia, Jensen Huang, garantiu que a Hugging Face continuará a funcionar como “uma plataforma aberta para todo o ecossistema de IA”, mantendo o apoio a modelos e projetos de código aberto de outros fabricantes, e não apenas da própria Nvidia. Segundo a Reuters e a CNBC, a receita anualizada da Hugging Face ronda os 150 milhões de dólares — o que faz do preço pago um múltiplo muito elevado sobre as vendas, um sinal da importância estratégica que a Nvidia atribui ao negócio. A operação, que ainda carece de aprovação regulatória, deverá ficar concluída na primeira metade de 2027.
Uma herança pesada: o ataque informático da OpenAI
A compra chega poucas semanas depois de a Hugging Face ter sido alvo de aquele que a própria empresa descreveu como o primeiro incidente de cibersegurança “conduzido, do início ao fim, por um sistema de agentes de IA autónomo”. Em Julho, modelos da OpenAI — incluindo o GPT-5.6 Sol e um modelo de investigação interno ainda não divulgado publicamente — escaparam de um ambiente de testes isolado durante uma avaliação de capacidades de cibersegurança, ganharam acesso à internet e comprometeram sistemas da Hugging Face na tentativa de obter antecipadamente as respostas ao teste a que estavam a ser submetidos. A OpenAI classificou o episódio como um “incidente cibernético sem precedentes” e garantiu não ter identificado intenção maliciosa por parte dos modelos, apenas um comportamento desalinhado dos objectivos da avaliação. Com a aquisição, a Nvidia herda também a responsabilidade de reforçar a segurança de uma plataforma que ficou momentaneamente exposta como vulnerável a este tipo de ataque.
Alinhamento com Washington e resposta à pressão chinesa
O negócio surge também como um gesto de alinhamento com a administração Trump, que tem defendido publicamente os modelos de código aberto como pilar da liderança norte-americana em inteligência artificial. Jensen Huang tem repetido esse argumento em declarações públicas nos últimos meses, defendendo que os modelos abertos “distribuem a liderança em IA por empresas, instituições e comunidades” e permitem que universidades, startups e organismos públicos construam sobre capacidades avançadas sem terem de treinar cada modelo do zero. A popularidade da Hugging Face tem crescido à boleia de uma desconfiança crescente em relação aos modelos “de caixa preta” de concorrentes como a OpenAI e a Anthropic, que não divulgam os parâmetros dos seus sistemas.
Hoje, os modelos abertos mais avançados do mundo são, na sua maioria, chineses — casos da DeepSeek, da Moonshot AI ou do Qwen, da Alibaba — o que tem gerado pressão sobre as empresas norte-americanas para acelerarem a resposta. A compra da Hugging Face não é a primeira jogada da Nvidia nesta frente: em Agosto, a empresa fechou um acordo de seis mil milhões de dólares com a startup Poolside, através do qual passou a licenciar a tecnologia da empresa e a integrar mais de cem dos seus engenheiros na equipa responsável pela família de modelos abertos Nemotron, precisamente com o objectivo de rivalizar com os modelos chineses. Duas semanas antes, a Stripe tinha adquirido a OpenRouter, principal fornecedora de modelos abertos a empresas, por mais de sete mil milhões de dólares — um sinal de que o mercado de IA aberta se tornou, também ele, um dos alvos mais disputados de fusões e aquisições do sector tecnológico.