O mercado financeiro de Angola assinalou ontem, terça-feira, dia 1, um marco de elevada relevância estratégica com o arranque operacional da Mulemba Re – Companhia Angolana de Resseguros, S.A.
Licenciada pela Agência de Regulação e Supervisão de Seguros (ARSEG) após um processo de maturação institucional que se estendeu por sensivelmente quinze anos, a empresa torna-se a primeira resseguradora de capital nacional a operar no país. A estrutura accionista resulta de uma aliança entre doze companhias de seguros a actuar no mercado doméstico e o Fundo Soberano de Angola (FSDEA), reflectindo um compromisso colectivo em prol da consolidação da soberania financeira.
Sob a direcção de Carlos Duarte na presidência do Conselho de Administração — profissional com vasta experiência na liderança de grandes seguradoras e no sector bancário — e de Paulo Bracons como presidente da Comissão Executiva, a companhia assume a missão “de transformar o modo como os riscos de elevada envergadura são geridos internamente.” A instituição surge, assim, com a ambição de preencher a lacuna histórica que impedia a retenção local do valor gerado pela actividade seguradora.
Durante várias décadas, a reduzida capacidade de retenção de capital do sector segurador angolano forçou a transferência massiva e obrigatória de prémios para praças financeiras estrangeiras. Apólices milionárias ligadas a sectores cruciais como o petróleo e gás, a exploração mineira, a aviação e as grandes infra-estruturas públicas eram quase integralmente cedidas a consórcios internacionais. A criação da Mulemba Reirá permitir inverter esta tendência de dependência, estancando a fuga constante de divisas e assegurando que uma fatia substancial dos prémios pagos permaneça dentro das fronteiras angolanas, convertendo-se em reservas técnicas susceptíveis de serem reinvestidas em títulos da dívida pública, no mercado imobiliário e em projectos de desenvolvimento real.
A actuação da nova companhia não se restringirá à subscrição directa de riscos locais. Mesmo nos casos em que a magnitude dos activos — designadamente na indústria petrolífera offshore e onshore — exija a participação do mercado internacional, a Mulemba Re passará a desempenhar um papel determinante como entidade coordenadora dos programas de resseguro. Esta posição conferirá ao país um maior poder de negociação perante os mercados de capitais estrangeiros, ao mesmo tempo que impulsiona a capacitação técnica de quadros nacionais no domínio da análise e da avaliação de riscos complexos, uma área de conhecimento historicamente concentrada no exterior.
Apesar da conjuntura favorável ao seu lançamento, a trajectória da Mulemba Re envolverá desafios substanciais num sector fortemente globalizado e regulado. A resseguradora angolana terá de construir gradualmente a sua reputação financeira para competir ou colaborar com gigantes regionais africanos já consolidados, como a Africa Re, a ZEP-RE, a Continental Re e a WAICA Re. para expandir no futuro a sua actividade aos países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e obter notações de risco favoráveis junto de agências internacionais de rating, a instituição terá de demonstrar uma rigorosa governação corporativa, elevados padrões de transparência na gestão de fundos e uma sólida política de retrocessão que proteja o seu próprio balanço.