Mercados Financeiros

Banca angolana mantém lucros elevados, mas crédito à economia continua a ser o grande desafio

Os principais bancos angolanos continuam a apresentar resultados positivos no primeiro semestre de 2026, mas a evolução do crédito revela que a rentabilidade do sistema financeiro ainda não se traduz, na mesma proporção, em financiamento à economia real.

A banca comercial angolana mantém um desempenho financeiro robusto em 2026, com vários dos principais bancos a registarem lucros elevados no primeiro semestre. O crescimento dos activos, dos depósitos e, em alguns casos, dos resultados líquidos confirma a solidez de uma parte significativa do sistema bancário, mas os números também revelam um desafio persistente: transformar a liquidez disponível em maior financiamento às empresas e às famílias.

Entre os maiores bancos, o Banco de Fomento Angola (BFA) apresentou um dos desempenhos mais consistentes. No primeiro semestre, registou um resultado líquido de cerca de 117,3 mil milhões de kwanzas, enquanto os activos atingiram aproximadamente 4,5 biliões de kwanzas. Os recursos de clientes situaram-se em cerca de 3,46 biliões de kwanzas.

O BFA encerrou o período com uma posição de capital confortável, mas a composição do seu balanço evidencia a importância dos activos financeiros. A carteira de crédito líquido rondava 953 mil milhões de kwanzas, valor significativamente inferior aos recursos captados junto dos clientes.

O Banco Angolano de Investimentos (BAI), por sua vez, continua a ocupar uma posição dominante em termos de dimensão. No primeiro trimestre, os activos atingiram cerca de 5,2 biliões de kwanzas e o resultado líquido foi de aproximadamente 62,2 mil milhões de kwanzas. O lucro, contudo, registou uma redução significativa face ao período homólogo de 2025.

A evolução do BAI contrasta com a do Banco Millennium ATLANTICO, que apresentou um crescimento expressivo dos resultados. No primeiro semestre, o banco alcançou um lucro de cerca de 12,6 mil milhões de kwanzas, mais de 50% acima do resultado registado no mesmo período do ano anterior.

O ATLANTICO beneficiou igualmente de um forte crescimento dos activos, que chegaram a aproximadamente 2,6 biliões de kwanzas. O desempenho contribuiu para reforçar a posição do banco entre as maiores instituições financeiras do país.

Outro banco que mantém uma trajectória positiva é o Standard Bank Angola. A instituição registou no primeiro trimestre um resultado líquido de cerca de 37,2 mil milhões de kwanzas, enquanto os activos ultrapassaram 2,3 biliões de kwanzas.

BPC tenta consolidar recuperação

No segmento da banca pública, o Banco de Poupança e Crédito (BPC) continua a procurar consolidar o processo de recuperação financeira e operacional.

O banco apresenta activos superiores a 1,7 biliões de kwanzas e uma carteira de crédito na ordem dos 380 mil milhões. Depois de anos marcados por elevados níveis de crédito malparado e prejuízos, o regresso aos resultados positivos constitui um dos principais indicadores da recuperação da instituição.

O BPC tem também intensificado os esforços de recuperação de crédito, procurando reduzir o peso dos activos problemáticos no balanço.

Bancos médios ganham espaço

O primeiro semestre mostra igualmente que o crescimento não está limitado aos maiores bancos. O Banco de Crédito do Sul (BCS) registou um resultado acumulado de aproximadamente 15,5 mil milhões de kwanzas. Os recursos de clientes cresceram, embora a carteira de crédito tenha recuado.

O Banco de Investimento Rural (BIR) apresentou, por sua vez, um crescimento expressivo do lucro, atingindo cerca de 11,5 mil milhões de kwanzas no segundo trimestre.

Estes desempenhos mostram uma banca mais diversificada, na qual instituições de menor dimensão começam a conquistar espaço em segmentos específicos do mercado.

Rentabilidade não significa necessariamente mais crédito

A principal questão que emerge dos resultados do primeiro semestre é a relação entre a rentabilidade dos bancos e o financiamento da economia.

Os bancos continuam a captar volumes significativos de depósitos, mas uma parcela importante desses recursos é canalizada para títulos e outros activos financeiros. Esta realidade permite às instituições obter retornos elevados, particularmente num contexto de taxas de juro ainda relativamente altas e de forte procura por títulos de dívida pública.

Para a economia angolana, contudo, o desafio é fazer com que uma maior proporção dos recursos disponíveis seja canalizada para crédito produtivo.

Empresas dos sectores da agricultura, indústria, comércio, transportes e serviços continuam a necessitar de financiamento para investir, aumentar a produção e criar emprego. O acesso ao crédito permanece, por isso, uma das questões centrais da política económica.

BNA procura reforçar estabilidade

O Banco Nacional de Angola (BNA) tem procurado, entretanto, reforçar a resiliência do sistema através de requisitos prudenciais mais exigentes.

Seis instituições foram classificadas como bancos de importância sistémica doméstica: BAI, BFA, BIC, Millennium ATLANTICO, Standard Bank Angola e BPC.

A classificação significa que eventuais dificuldades numa destas instituições poderiam produzir efeitos significativos sobre o conjunto do sistema financeiro, justificando requisitos adicionais de capital e reservas.

Uma banca mais forte, mas ainda com desafios

Os resultados disponíveis do primeiro semestre de 2026 apontam, assim, para uma banca angolana financeiramente mais robusta, mas ainda confrontada com desafios estruturais.

A concentração dos activos nos maiores bancos, a elevada exposição a títulos de dívida e a necessidade de aumentar o financiamento à economia produtiva estão entre os principais temas que deverão marcar a evolução do sector.

A questão já não é apenas saber se os bancos conseguem gerar lucros. O desafio passa cada vez mais por perceber quanto desses lucros e dos recursos captados junto dos clientes se transforma em investimento, produção e crescimento económico.

Num país que procura diversificar a economia para reduzir a dependência do petróleo, a capacidade do sistema bancário de financiar empresas fora do sector petrolífero será determinante.

A banca angolana entra, desta forma, numa nova fase: depois de anos em que a prioridade esteve centrada na estabilidade, recapitalização e limpeza dos balanços, a pressão passa agora para a capacidade de financiar o crescimento económico sem comprometer a solidez financeira conquistada.

Relacionadas

Banca angolana mantém lucros elevados, mas crédito à economia continua

Os principais bancos angolanos continuam a apresentar resultados positivos no

O homem mais rico das Filipinas compra operador portuário presente

A International Container Terminal Services (ICTSI), controlada pelo magnata filipino

Bessent recebe G20 em plena tempestade diplomática: Irão, tarifas e

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, começa