A maior petrolífera privada angolana, Etu Energias, assinou um novo contrato de compra e venda com a Cabinda Gulf Oil Company, subsidiária da Chevron, para adquirir 31% do Bloco 14 e 15% do Bloco 14K, na Bacia do Baixo Congo, ao largo de Cabinda. O negócio, avaliado numa consideração base de 260 milhões de dólares em numerário — com pagamentos contingentes adicionais que podem chegar a 250 milhões de dólares até 2038, indexados ao desenvolvimento do campo PKBB e ao preço do petróleo —, vai ser financiado por uma linha de crédito da Shell Western Supply and Trading, e deverá ficar concluído no início de 2027, sujeito às aprovações regulatórias habituais, incluindo o aval da concessionária petrolífera nacional (ANPG).
O mais relevante neste anúncio não é apenas o valor da transacção, mas o facto de já ser a terceira vez em pouco mais de cinco meses que a Etu Energias reforça a sua posição precisamente nos Blocos 14 e 14K. Em Março de 2026, a empresa tinha assinado um acordo com a Azule Energy — a joint-venture entre a BP e a Eni — para comprar 20% do Bloco 14 e 10% do Bloco 14K, um negócio avaliado em cerca de 310 milhões de dólares, com pagamentos diferidos até 115 milhões, que deveria concluir-se no segundo semestre deste ano. Essa aquisição já era, por sua vez, um reforço de uma posição anterior: a Etu tinha entrado no Bloco 14 com 20% comprados à joint-venture entre a TotalEnergies e a INPEX (AB14BV), e mais tarde ampliado essa fatia com a compra de 9% à Galp, em 2024.
Com esta nova operação junto da Chevron — que decorre do exercício do direito de preferência da EtuEnergias enquanto parceira já existente em ambas as licenças —, a empresa está, na prática, a consolidar-se como o principal accionista privado destes activos, à medida que as multinacionais internacionais que historicamente os detinham reduzem a sua exposição. Não é coincidência: a Chevron tem vindo a reorientar a sua estratégia em Angola para os blocos que considera centrais — nomeadamente os Blocos 0, 33, 49 e 50 —, alienando participações consideradas não essenciais, um movimento que se enquadra na tendência mais ampla de consolidação e desinvestimento selectivo das grandes petrolíferas internacionais em activos maduros do país.
Um activo histórico, mas ainda produtivo
O Bloco 14 não é um activo qualquer: é uma licença de águas profundas em produção desde 1999, que já extraiu mais de 900 milhões de barris de crude de elevada qualidade, indexado ao Brent, e que chegou a atingir um pico de produção próximo dos 200 mil barris diários, através de nove campos ligados às instalações centrais de Benguela, Belize, Lobito, Tomboco e Tômbua-Lândana. O Bloco 14K, por sua vez, alberga o campo de Lianzi, um projecto de desenvolvimento partilhado com a República do Congo. Ao consolidar posição nestes activos madurosmas ainda com infraestrutura consolidada e produção estável, a Etu Energias segue uma lógica de investimento que a própria empresa descreveu, aquando do negócio com a Azule, como assente em “activos em produção, com perfis sólidos de geração de caixa” — uma estratégia mais conservadora do que apostar em exploração de novos campos, mas que garante previsibilidade de receitas.
Este reforço nos Blocos 14 e 14K não é um episódio isolado, mas o culminar de um ano particularmente movimentado para a Etu Energias. Em Outubro de 2025, a empresa tornou-se a primeira petrolífera privada angolana a emitir obrigações corporativas no mercado de capitais nacional, angariando 73 mil milhões de kwanzas (cerca de 80 milhões de dólares) através da emissão “ETU — Obrigações 2025-2030”, com procura descrita como forte por parte de investidores institucionais. A operação surgiu depois de a empresa ter adiado, pelo menos duas vezes, os seus planos de entrada em bolsa através de uma oferta pública de acções — um adiamento que ganhou outro significado depois do fracasso, em 2024, da oferta pública de subscrição da petrolífera Acrep, que não conseguiu gerar procura suficiente entre investidores e serviu de aviso ao mercado angolano.
Ainda em 2025, a empresa assinou um acordo de financiamento estruturado, organizado por um consórcio que incluiu o Mauritius Commercial Bank, para cobrir despesas de capital ligadas à sua participação de 7,5% no Bloco 17/06 — sede do Projecto Begónia, apresentado como pioneiro em Angola por envolver desenvolvimento conjunto entre blocos distintos.
Do ponto de vista de resultados, a Etu Energias tinha já registado, em 2024, um lucro de 215,2 milhões de dólares — mais 53% face ao ano anterior —, um crescimento suportado sobretudo pela integração de rendimentos de subsidiárias e associadas, que mais do que duplicaram. Esse resultado foi alcançado apesar de um aumento significativo no custo médio de produção por barril, que subiu de 13,8 para 19,4 dólares, e de uma produção média diária que, ainda assim, cresceu de cerca de 14.800 para quase 22.000 barris por dia entre 2023 e 2024.
O objectivo declarado: 80 mil barris por dia
É neste contexto de expansão sistemática por aquisição — e não por descoberta de novos campos — que a Etu Energias tem vindo a aproximar-se do seu objectivo estratégico de médio prazo: alcançar uma produção de 80 mil barris de petróleo por dia dentro de cinco anos. Só a aquisição à Azule Energy, anunciada em Março, foi estimada em acrescentar cerca de nove mil barris diários à produção da empresa; a nova operação com a Chevron deverá reforçar ainda mais essa trajectória, uma vez concluída.
A estratégia da empresa — que opera hoje os blocos terrestres FS, FST e vários blocos CON, além do Bloco 2/05 offshore, e detém participações não operadas nos Blocos 3/05, 3/05-A, 4/05, 14, 14K, 14/23, 17/06 e 32 — reflecte um movimento mais amplo na indústria petrolífera angolana: à medida que multinacionais como a Chevron, a BP, a Eni e a TotalEnergies reequilibram os seus portefólios locais, empresas privadas 100% angolanas como a EtuEnergias têm capturado essas participações, consolidando-se como intermediárias relevantes entre o capital internacional que se retira de activosmaduros e a concessionária nacional que continua a exigir participação local nos contratos petrolíferos do país — um enquadramento regulatório que a AfricanEnergy Chamber já classificou como uma validação do quadro angolano de apoio aos direitos de preferência e ao conteúdo local.