Economia

Economia angolana acelera para 8,74% no segundo trimestre — e o petróleo volta a crescer pela primeira vez em mais de um ano

A economia angolana cresceu 8,74% no segundo trimestre de 2026 face a igual período do ano passado, segundo as Contas Nacionais Trimestrais divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). O número não é apenas o mais elevado dos últimos trimestres — é também o primeiro, desde há mais de um ano, em que o sector petrolífero volta a apresentar crescimento homólogo positivo, encerrando uma sequência de contracções sucessivas que vinha a condicionar o desempenho global da economia.

Olhar apenas para o número do segundo trimestre esconde a dimensão da mudança de ritmo que a economia angolana tem registado ao longo de 2026. No terceiro trimestre de 2024, o PIB tinha crescido 5,5% — na altura, a expansão mais forte desde 2015. Seguiu-se, no entanto, um período de abrandamento: no segundo trimestre de 2025, o crescimento homólogo caiu para apenas 1,08%, com o sector petrolífero a contrair 8,65% e a travar o desempenho do sector não petrolífero, que ainda assim crescia 3,43%. Essa contracção da actividade petrolífera prolongou-se por cinco trimestres consecutivos, segundo o próprio INE.

A viragem começou a desenhar-se no primeiro trimestre de 2026, quando o PIB acelerou para 5,32% em termos homólogos — quase o dobro dos 3,13% registados no mesmo período de 2025 — ainda com o sector petrolífero em ligeira contracção(-0,21%) mas já com o não petrolífero a crescer 6,22%. É neste contexto que o resultado do segundo trimestre de 2026 ganha relevância: os 8,74% de crescimento homólogo não só ultrapassam largamente o trimestre anterior, como assinalam a reentrada do sector petrolífero em terreno positivo, com uma expansão de 5,64% — a par de um sector não petrolífero que se mantém como principal motor da economia, com um crescimento de 9,24%.

Em termos de dinâmica trimestral, a economia cresceu 2,75% em relação ao primeiro trimestre de 2026 — um ritmo de aceleração sequencial que compara com os 1,37% registados entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, reforçando a leitura de uma economia em recuperação gradual mas consistente ao longo do ano.

O que está a puxar o crescimento

O PIB do segundo trimestre fixou-se em 43,43 biliões de kwanzas. Em valor absoluto, o maior contributo para a produção nacional veio da Agro-pecuária e Silvicultura (14,86 biliões de kwanzas), seguida do Comércio e Reparação (7,01 biliões), da Extracção e Refino de Petróleo (6,97 biliões) e da Administração Pública, Defesa e Segurança Social (3,90 biliões).

Mas são os ritmos de crescimento sectorial que melhor traduzem a mudança de composição da economia: a Extracção de Diamantes liderou com uma variação trimestral de 16,46%, seguida da Informação e Comunicação (14,30%), do Serviço de Alojamento e Restauração (12,59%), dos Produtos da Indústria Transformadora (12,22%) e da Intermediação Financeira e de Seguros (11,83%). Em termos de contributo para a variação homóloga do PIB, destacam-se o Comércio e Reparação de Veículos (1,67 pontos percentuais), os Produtos da Indústria Transformadora (1,48 p.p.), a Extracção e Refino de Petróleo (1,03 p.p.), a Informação e Comunicação (1,02 p.p.) e a Agro-pecuária (1,00 p.p.). Note-se que o sector petrolífero, apesar de ter regressado ao crescimento, já não domina isoladamente a lista dos maiores contributos — um sinal, ainda que preliminar, do reequilíbrio que a política económica angolana tem procurado promover nos últimos anos, no sentido de reduzir a dependência do petróleo.

Chama ainda a atenção o forte aumento nos subsídios sobre produtos, que cresceram 116,26% em termos homólogos e 114,61% em termos trimestrais, ao ponto de os Impostos sobre Produtos Líquidos de Subsídios terem registado um valor negativo de 149,13 mil milhões de kwanzas — ou seja, os subsídios atribuídos superaram os impostos cobrados sobre os produtos. Esta é uma dinâmica relevante para a leitura do resultado: parte do dinamismo registado pode reflectir também o peso crescente de apoios do Estado a determinados produtos e sectores, e não apenas ganhos de produtividade ou procura orgânica.

O PIB acumulado ao longo de 2026 (primeiro e segundo trimestres em conjunto) cresceu 7,15% face a igual período de 2025, com destaque para a Informação e Comunicação (19,71%), Transporte e Armazenagem (14,17%), Extracção de Diamantes (10,13%) e Produtos da Indústria Transformadora (9,72%). Já numa óptica de mais longo prazo — os últimos quatro trimestres acumulados, que incluem ainda parte do período de maior abrandamento em 2025 — o crescimento cai para 5,4%, o que ilustra como o resultado mais recente representa uma aceleração acentuada face à média do último ano, e não necessariamente um novo patamar já consolidado.

A distância entre o trimestre e o ano

Vale a pena confrontar estes números trimestrais elevados com as projecções anuais mais recentes para a economia angolana: tanto o Banco Mundial como o Fundo Monetário Internacional apontavam, para o conjunto de 2026, um crescimento bem mais modesto — entre 2,3% e 2,4%, segundo estimativas divulgadas ao longo do ano. Essa distância entre os ritmos trimestrais homólogos (que comparam trimestres isolados de anos diferentes, e por isso podem ser fortemente influenciados por bases de comparação baixas, como aconteceu com o trimestre fraco de 2025) e as previsões de crescimento anual sugere alguma cautela na leitura destes resultados: um trimestre forte não garante, por si só, que o ano feche com o mesmo ritmo, sobretudo tendo em conta a volatilidade histórica do sector petrolífero e o peso ainda considerável dos subsídios estatais na composição do crescimento observado.

Ainda assim, o regresso do sector petrolífero a terreno positivo, depois de cinco trimestres consecutivos de contracção, e a consolidação do sector não petrolífero como motor persistente da economia, são desenvolvimentos que a generalidade dos analistas tende a interpretar como um sinal encorajador para a trajectória de diversificação económica que Angola tem procurado perseguir nos últimos anos — mesmo que o ritmo anual definitivo só se confirme com a divulgação dos trimestres seguintes.

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