O município do Ambriz, na província do Bengo, registou a entrada de 1.000 turistas — entre nacionais e estrangeiros — nos primeiros sete meses do ano, segundo dados avançados pela Direcção Municipal da Cultura, Turismo e Desporto. O número, gerido por uma direcção local com meios modestos, é apresentado como um sinal positivo para uma região que tenta afirmar-se como destino turístico. Colocado em perspectiva, revela também a distância que ainda separa o potencial natural e histórico do Ambriz da sua exploração efectiva.
Feitas as contas, os 1.000 turistas em sete meses correspondem a uma média de pouco menos de 150 por mês — cerca de cinco pessoas por dia — para um município com praias ao longo da costa, um porto histórico e um dos locais mais singulares do turismo angolano: o chamado “cemitério de navios” na região de Sarico, no Panguila, onde os cascos de embarcações abandonadas ao longo dos anos se tornaram uma atracção por si só. É um volume de visitantes reduzido face ao que a província do Bengo tem procurado projectar nos últimos meses, com sucessivos fóruns e associações a apostar no chamado “turismo de sol e mar” como eixo de desenvolvimento económico regional.
O próprio Ambriz foi, este ano, palco do 1.º Fórum Provincial do Turismo do Bengo, encontro que deu origem à criação da Associação Provincial de Hotelaria e Turismo do Bengo (APHTB), com o objectivo assumido de dinamizar a actividade económica e melhorar a qualidade dos serviços turísticos na província. Nesse fórum, responsáveis do sector — como o coordenador da Associação dos Guias Turísticos de Angola no Bengo — identificaram publicamente os principais obstáculos ao crescimento do turismo na região: a falta de melhoria nas praias, a fragilidade das acessibilidades e a necessidade de maior articulação com o sector hoteleiro para oferecer produtos atractivos a turistas nacionais e estrangeiros.
Um destino com história, mas com condições limitadas
O Ambriz carrega uma memória histórica que poucos municípios angolanos possuem: foi, no período colonial, um dos pontos ligados ao comércio de escravos na costa africana, tornando-se mais tarde um centro relevante de produção de café e óleo de palma. Hoje, o município — com cerca de 54 mil habitantes segundo o Censo de 2024 — mantém um pequeno porto e um aeroporto com pista não pavimentada, infraestruturas que, por si só, ilustram os limites logísticos que ainda condicionam o acesso de visitantes à região, sobretudo turistas estrangeiros habituados a padrões de conectividade mais exigentes.
A distância face a Luanda — cerca de duas a três horas de estrada, segundo relatos de viajantes — é apontada por quem já visitou o município como parte do próprio atractivo: um ritmo de vida mais lento, praias menos concorridas e uma atmosfera que contrasta com o bulício da capital. Mas essa mesma distância, associada à escassez de unidades hoteleiras de qualidade e à limitação de opções de vida nocturna e restauração, ajuda a explicar por que motivo o fluxo de visitantes permanece contido.
O que o número esconde e o que pode revelar
Sem uma comparação com anos anteriores, é difícil avaliar se os 1.000 turistas registados representam crescimento, estagnação ou mesmo recuo face a períodos anteriores — a Direcção Municipal da Cultura, Turismo e Desporto não especifica essa evolução histórica nos dados avançados. É também relevante notar que a província do Bengo, onde se insere o Ambriz, foi palco este ano de um acontecimento com impacto negativo na sua imagem pública: um deslizamento de terras num local de exploração aurífera ilegal, que provocou várias mortes e atraiu atenção mediática negativa para a província — um tipo de notícia que, ainda que não directamente ligada ao turismo, tende a pesar na percepção externa de segurança de uma região.
Para que o Ambriz e o Bengo consigam transformar o seu potencial de sol, mar, natureza e património histórico num sector turístico com peso económico relevante, os próprios actores locais têm sido claros: falta um esforço conjunto entre autoridades municipais, provinciais e operadores privados para melhorar praias, acessos e oferta hoteleira. Os 1.000 turistas de sete meses são, nesse sentido, menos um resultado a celebrar isoladamente e mais um ponto de partida que evidencia o caminho ainda por percorrer.