As emissões destinadas a financiar grandes infraestruturas públicas são, normalmente, emissões de obrigações, sobretudo:
Obrigações de Infraestruturas — títulos de dívida emitidos para financiar projectos como estradas, pontes, portos, aeroportos, barragens, caminhos-de-ferro ou redes de energia.
Obrigações soberanas destinadas a projectos específicos — emitidas pelo Estado para captar recursos destinados a investimentos públicos.
Obrigações municipais ou subnacionais — quando a legislação permite, podem financiar infraestruturas de governos locais.
Green bonds (obrigações verdes) — quando a infraestrutura tem benefícios ambientais, como energias renováveis, transportes sustentáveis ou saneamento.
Sustainability bonds (obrigações sustentáveis) — financiam projectos com benefícios ambientais e/ou sociais.
Project bonds — títulos associados directamente ao financiamento de um projecto de grande dimensão, muitas vezes numa estrutura de parceria público-privada.
Exemplos mais relevantes de infraestruturas construídas em África em que se recorreu a este tipo de financiamento:
1. Quénia — estradas, água e energia
O Quénia é provavelmente o exemplo africano mais clássico. Desde 2009, o Governo emitiu várias Infrastructure Bonds, afectando os recursos a projectos de estradas, abastecimento de água, saneamento, irrigação e electrificação rural. O FMI confirma que o país emitiu três obrigações de infra-estruturas desde Fevereiro de 2009. Mais recentemente, o M-Akiba, uma obrigação de infra-estruturas destinada a pequenos investidores, captou cerca de 466 milhões de dólares para projectos de desenvolvimento de infra-estruturas públicas.
2. Etiópia — Grande Barragem da Renascença (GERD)
Este é um dos exemplos mais interessantes em África. A Grand Ethiopian Renaissance Dam (GERD), um projecto de cerca de 5 mil milhões de dólares, foi financiada em grande medida com recursos domésticos, incluindo obrigações adquiridas por cidadãos etíopes. A saída dos investidores internacionais em 2014 levou a Etiópia a apostar ainda mais no financiamento interno. Ou seja, neste caso, o mercado doméstico de capitais foi mobilizado directamente para uma das maiores obras de infra-estrutura de África.
3. Malawi — estradas em Lilongwe
O Malawi utilizou infrastructure bonds para financiar duas importantes obras rodoviárias na capital, Lilongwe: Presidential Way e Kenyatta Drive. É um exemplo particularmente interessante porque a emissão foi estruturada especificamente para financiar projectos rodoviários identificados.
4. África do Sul — novo modelo de Infrastructure and Development Finance Bond.
Em Dezembro de 2025, o Tesouro realizou a primeira emissão soberana de uma Infrastructure and Development Finance Bond, tendo captado 11,795 mil milhões de rands. Os recursos estão exclusivamente destinados a projectos elegíveis do Budget Facility for Infrastructure, abrangendo energia, água, transportes e infraestruturas sociais.
Em 2026, o Governo sul-africano indicou, entre os investimentos apoiados pelo programa, projectos relacionados com os corredores ferroviários de carvão e minério de ferro da Transnet, além de projectos de água, saúde, educação e outras infra-estruturas.
E em Angola?
Em Angola não existe, neste momento, uma categoria geral chamada simplesmente “obrigações de infraestruturas”. O instrumento utilizado pelo Estado para captar recursos no mercado de capitais é, sobretudo, o das Obrigações do Tesouro (OT), por isso a designação mais adequada depende de como o financiamento é estruturado.
Para grandes infrestruturas públicas, como caminhos-de-ferro, estradas, barragens, portos ou redes eléctricas, o Estado pode recorrer sobretudo às Obrigações do Tesouro (OT). A própria regulamentação da BODIVA define as OT como títulos de médio e longo prazo emitidos pelo Tesouro Nacional para financiar, entre outras finalidades, investimentos públicos. A BODIVA explica que os leilões de Títulos do Tesouro são realizados no âmbito do Plano Anual de Endividamento e têm como principal finalidade o financiamento da despesa pública.
O Estado pode, portanto, emitir Obrigações do Tesouro de médio e longo prazo, destinando os recursos ao financiamento do investimento público. As OT podem assumir diferentes modalidades, incluindo OT Não Reajustáveis (OT-NR) e OT em moeda estrangeira (OT-ME). A BODIVA regista actualmente emissões com maturidades de vários anos.
Há ainda uma possibilidade mais específica: obrigações temáticas, como obrigações verdes ou sustentáveis, caso o projecto de infraestrutura cumpra os critérios ambientais ou sociais aplicáveis. A própria estratégia da BODIVA prevê o aprofundamento do financiamento através de obrigações, incluindo obrigações sustentáveis.
As dez maiores infraestruturas de Angola que receberam financiamento de Obrigações do Tesouro:
| Projecto | Dimensão Aproximada | Principal estrutura financiamento |
| Aproveitamento Hidro. Laúca | 4,3 mil milhões USD | Financiamento externo + investimento do Estado |
| Aproveitamento Hidro. Caculo Cabaça | 5 mil milhões USD | Empréstimo Externo + investimento do Estado |
| Aeroporto I. Agostinho Neto | 2 mil milhões USD | Financiamento chinês + investimento público |
| Central de Ciclo Combinado do Soyo | 1 mil milhão USD | Financiamento externo + investimento público |
| Projecto de abastecimento de água de Bita/Quilonga | Centenas de milhões de USD | Empréstimos externos + investimento público |
| Rede Nacional de Estradas | Vários milhares de milhões de USD ao longo de anos | Orçamento + financiamento externo |
| Programa de expansão rede eléctrica | Várias milhares de milhões de USD | Orçamento mais financiamento externo |
| Caminho de ferro de Benguela | Vários milhares de milhões de USD | Financiamento externo + investimento público |
| Portos e infra-estruturas portuárias | Vários milhares milhões de USD | Orçamento, financiamento externo e PPP |
| Infra-estruturas de Luanda | Vários milhares de milhões de USD | Investimento público + financiamento externo |