Isaac dos Anjos revela modelo de financiamento com BNDES, BB Proex, BDA e Fundo Soberano e anuncia Projecto Terra Lunda, avaliado em 83,2 milhões USD
O Governo angolano identificou uma área de 800 mil hectares para levantamento e ordenamento, com vista à instalação de empresas agrícolas brasileiras integradas com as comunidades locais, anunciou o ministro da Agricultura e Florestas, Isaac dos Anjos.
A medida enquadra-se na nova fase da cooperação económica entre Angola e Brasil, que pretende passar de uma relação essencialmente assente na cooperação técnica para uma parceria orientada para o investimento privado, produção agrícola, transferência de tecnologia e desenvolvimento de cadeias de valor.
A revelação foi feita durante o Fórum de Agronegócios Angola-Brasil, em Luanda, onde o ministro destacou o potencial agrícola de Angola e a necessidade de acelerar a entrada de capital privado no sector.
“Passamos de uma cooperação predominantemente técnica para uma cooperação orientada para o investimento produtivo, para a inovação, para a investigação científica e para a construção de cadeias de valor competitivas”, afirmou Isaac dos Anjos.
De acordo com o ministro, o território de 800 mil hectares deverá ser objecto de levantamento e ordenamento antes da instalação dos projectos agrícolas.
A proposta prevê que as empresas brasileiras trabalhem em articulação com as comunidades locais, numa estratégia que pretende conciliar o investimento de maior escala com a agricultura familiar.
A iniciativa surge num contexto em que Angola procura aumentar a produção nacional, reduzir a dependência das importações e criar capacidade para exportar produtos agrícolas para os mercados regionais e internacionais.
Segundo os dados apresentados pelo governante, Angola possui 36 milhões de hectares de terras aráveis e cerca de 150 milhões de hectares de terras agricultáveis. Actualmente, as famílias trabalham aproximadamente seis milhões de hectares, enquanto o sector empresarial ainda não atingiu um milhão de hectares.
Para viabilizar a entrada de investidores brasileiros, Angola e Brasil estão a trabalhar num modelo de estruturação financeira que envolve instituições dos dois países.
A grelha apresentada prevê 45% de participação do BNDES, 23% do BB Proex, 5% do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), 17% do Fundo Soberano de Angola e 10% dos produtores.
O modelo, segundo Isaac dos Anjos, pretende criar uma “grelha de conforto” para os investidores brasileiros e facilitar a mobilização de financiamento para novos negócios agrícolas.
Uma delegação angolana, que integrou representantes das instituições financeiras envolvidas, deslocou-se ao Brasil para discutir a proposta. O ministro reconheceu, entretanto, que ainda não existe uma decisão ou declaração firme das instituições financeiras sobre a sua concretização.
Além dos 800 mil hectares destinados à parceria com investidores brasileiros, o Governo está a lançar o Projecto Terra Lunda, na província da Lunda Norte.
O projecto prevê a exploração de 20 mil hectares e será implementado entre 2027 e 2030, com uma incorporação de cerca de cinco mil hectares por ano.
O investimento está estimado em 83,2 milhões USD e deverá assumir uma natureza essencialmente empresarial.
A iniciativa enquadra-se na estratégia do Executivo de aumentar a participação do sector privado na produção agrícola e desenvolver projectos de maior escala fora dos principais centros tradicionais de produção.
A cooperação bilateral mantém também uma componente de investigação e desenvolvimento tecnológico.
Em Maio de 2025, Angola, Brasil e a Embrapa assinaram, em Brasília, um novo projecto de cooperação para fortalecer as instituições angolanas de investigação agropecuária e florestal.
O programa prevê a formação de investigadores e técnicos angolanos e representa um investimento de 1,94 milhões USD.
A cooperação com a Embrapa já permitiu, segundo Isaac dos Anjos, a formação de investigadores angolanos no Brasil e a introdução de tecnologias adaptadas às condições agroecológicas nacionais.
A estratégia do Executivo não se limita ao aumento da produção agrícola. O objectivo passa igualmente por desenvolver cadeias de transformação e comercialização, aumentando o valor acrescentado gerado internamente.
“Queremos investidores comprometidos com uma agricultura moderna, competitiva e inclusiva”, afirmou o ministro, defendendo parceiros capazes de produzir e transformar em Angola, abastecer o mercado nacional e conquistar mercados regionais e internacionais.
Isaac dos Anjos destacou ainda a necessidade de assegurar a integração dos pequenos produtores nos grandes projectos agrícolas, como forma de promover a inclusão produtiva e o desenvolvimento das economias locais.
A nova agenda Angola-Brasil coloca, assim, o investimento privado no centro da cooperação agrícola, numa altura em que o Executivo procura capital, tecnologia e capacidade de produção para acelerar a diversificação da economia e reduzir a factura das importações alimentares.