Programa Alimentar Mundial teme que fenómeno empurre quase 49 milhões de pessoas para a fome aguda até 2027, com a África Austral entre as regiões mais atingidas e o Cunene, a Huíla e o Namibe já sob vigilância de agências internacionais.
Angola está entre os países africanos mais expostos a um fenómeno que, segundo a ONU, pode empurrar quase 49 milhões de pessoas para a fome aguda em todo o mundo até ao final de 2027. Uma análise da rede FEWS NET (Sistema de Alerta Precoce para a Fome), especificamente dedicada ao país, prevê que a seca induzida pelo El Niño conduza a uma situação de Crise (Fase 3 da classificação internacional IPC) nas regiões do Sul angolano já em Novembro — um cenário que reflecte a vulnerabilidade estrutural das províncias do Cunene, da Huíla e do Namibe, historicamente as mais afectadas por secas cíclicas associadas a este fenómeno climático.
O alerta surge no âmbito de um relatório mais amplo divulgado esta semana pelo Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM), segundo o qual um El Niño de forte intensidade pode elevar para 274 milhões o número total de pessoas sem condições de satisfazer as suas necessidades alimentares diárias em todo o mundo.
Segundo o relatório, há 81% de probabilidade de o actual episódio se tornar um El Niño de grande intensidade, com as temperaturas da superfície do Oceano Pacífico já a atingir os níveis mais altos desde pelo menos 1982 — o que poderá torná-lo o fenómeno mais forte desde 1950. O pico é esperado entre Setembro e Dezembro deste ano, com efeitos que deverão persistir ao longo de 2027, devido ao impacto nos ciclos de colheita.
África Austral entre as regiões mais atingidas
A análise do PAM abrange 45 países já considerados vulneráveis à insegurança alimentar em África, na Ásia e na América Latina. Segundo o relatório, a América Central e a África Austral deverão ser as regiões mais atingidas: prevê-se um aumento de 83% na insegurança alimentar aguda na América Central, e de quase 75% na África Austral — um salto que, segundo o PAM, poderá traduzir-se em mais de 12 milhões de novos casos apenas nesta região, combinada com a América do Sul e as Caraíbas.
No leste e sul de África, mais de 18 milhões de pessoas podem enfrentar uma deterioração no acesso a alimentos — um crescimento estimado em 26% face aos níveis actuais. Segundo o PAM, a África Austral enfrenta um risco particularmente elevado porque uma parte relevante da sua população depende da agricultura de subsistência, movida pelas chuvas — um modelo agrícola especialmente vulnerável a secas prolongadas e a padrões de precipitação irregulares.
“O El Niño é uma ameaça massiva à segurança alimentar de milhões de pessoas que já são vulneráveis”, afirmou Carl Skau, director-executivo interino do PAM, em comunicado. “Quanto antes ajudarmos as famílias a preparar-se para estes choques climáticos, maior a nossa capacidade de salvar vidas e proteger meios de subsistência.”
Um risco já conhecido no Sul angolano
Mais de 2,2 milhões de pessoas já tinham sido afectadas pela seca associada ao El Niñonas províncias do Cunene, da Huíla e do Namibe, com a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe a instar o Governo a “assumir responsabilidades e agir com urgência” perante a situação. A dimensão do problema levou mesmo, em episódios anteriores, a que crianças angolanas atravessassem a fronteira para a vizinha Namíbia, fugindo à escassez de alimentos e de água na sua região de origem.
O fenómeno não é novo para o Sul de Angola: dados meteorológicos mostram secas recorrentes associadas ao El Niño desde os anos 1990 — em 1992/93, 1998/99, 2012/13, 2015/16 e 2018/19 —, com o episódio de 2021/22, considerado um dos mais graves das últimas décadas, a afectar mais de 1,3 milhões de pessoas, destruindo colheitas e pastagens em toda a região.
Para responder a esta vulnerabilidade estrutural, o Governo angolano tem em curso o programa FRESAN — Fortalecimento da Resiliência e da Segurança Alimentar e Nutricional em Angola —, financiado pela União Europeia com 65 milhões de euros e co-gerido pelo Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, em parceria com a FAO e o PNUD. O programa está especificamente dirigido às três províncias do Sul mais afectadas, com o objectivo de reforçar a resiliência das famílias, apoiar a produção agrícola sustentável e melhorar a situação nutricional das comunidades mais vulneráveis.
Uma corrida contra o tempo
Segundo o PAM, desde Maio a agência já activou programas de prevenção em vários países vulneráveis, incluindo Sudão do Sul, Chade, Mauritânia, Uganda, Guatemala e El Salvador, com mais de 14 milhões de dólares destinados a cerca de 500 mil pessoas. A agência calcula que cada dólar investido em prevenção pode evitar entre três e sete dólares em perdas e custos humanitários futuros — um argumento que reforça a urgência de mobilizar recursos preventivos também para o Sul de Angola, antes que o pico do fenómeno, esperado para o final do ano, agrave ainda mais uma situação já identificada como preocupante pelas próprias agências internacionais.