Primeiro relatório trimestral desde a estreia em Bolsa revela que o Starlink e a divisão de IA já geram quase 90% da receita da empresa, deixando os lançamentos de foguetões como o negócio mais pequeno de Elon Musk
A receita da SpaceX disparou 92% em relação ao ano anterior, superando largamente as expectativas de Wall Street, no primeiro relatório de resultados da fabricante de foguetões desde a sua entrada em Bolsa, depois de semanas de negociação volátil.
A empresa, liderada por Elon Musk, registou uma receita de 7,8 mil milhões de dólares no segundo trimestre, face aos 4,1 mil milhões de dólares do mesmo período do ano passado — um valor bem acima da estimativa média dos analistas consultados pela Bloomberg, que apontavam para 6,81 mil milhões de dólares. O prejuízo líquido do trimestre situou-se nos 541 milhões de dólares, uma melhoria significativa face aos 4,3 mil milhões de dólares perdidos no primeiro trimestre do ano.
Pela primeira vez, a SpaceX dividiu formalmente a sua receita em três segmentos no documento entregue à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC). O Starlink, o serviço de Internet por satélite, gerou 4,291 mil milhões de dólares no trimestre — cerca de 55% da receita total da empresa —, com um crescimento homólogo de 66%. Já a divisão de Inteligência Artificial facturou 2,561 mil milhões de dólares, cerca de 33% do total, depois de um crescimento homólogo de 247%. Os lançamentos de foguetões e o negócio espacial tradicional — a actividade original da empresa — representaram apenas 12% da receita, tornando-se assim o segmento mais pequeno do grupo.
O presidente da SpaceX destacou aos analistas que o crescimento do Starlink foi impulsionado pelos negócios de consumo, governamentais e empresariais, sublinhando recentes parcerias com grandes companhias aéreas. Segundo a empresa, o Starlink conta actualmente com 12 milhões de subscritores, o dobro do número registado há um ano.
Musk garante que os mercados “subestimam” a SpaceX
Numa conferência com analistas e investidores, Musk defendeu que as pessoas parecem estar a “subestimar” a SpaceX, apontando o Starlink como o único segmento da empresa actualmente rentável. “Nos primeiros anos, o Starlink oferecia apenas conectividade ‘esporádica’, mas hoje tem um tempo de actividade incrível e baixa latência”, afirmou o empresário, considerando que cada vez mais escritórios e agências podem tratar o Starlink como fornecedor “principal” de acesso à Internet, e não apenas como alternativa de reserva.
O director financeiro da SpaceX, Bret Johnsen, afirmou aos analistas que a empresa está em vias de atingir 100 mil milhões de dólares em receita anualizada recorrente até ao final do ano — uma meta que, segundo Johnsen, assume já contribuições da recente aquisição da Cursor, empresa de ferramentas de programação assistida por IA.
Apesar da forte subida da receita, os investidores mostraram-se preocupados com o ritmo de despesa da empresa. As despesas de capital da SpaceX aumentaram mais de seis vezes face ao ano anterior, para 18,37 mil milhões de dólares no trimestre — a maior parte, 15,83 mil milhões de dólares, destinada à área de Inteligência Artificial. O valor superou a estimativa média dos analistas, de 13,22 mil milhões de dólares, e surge numa altura em que os investidores têm escrutinado de perto os custos com IA de todo o sector tecnológico, depois de resultados semelhantes divulgados recentemente pela Alphabet, pela Meta, pela Microsoft e pela Amazon.
Com as receitas obtidas na sua histórica oferta pública inicial (IPO), a empresa tem agora 93,5 mil milhões de dólares em disponibilidades e equivalentes de caixa, face aos 24,7 mil milhões de dólares registados no final do primeiro trimestre. Em contrapartida, a dívida e os contratos de locação financeira da empresa totalizam já 36,8 mil milhões de dólares, face aos 22 mil milhões de dólares de três meses antes.
Ainda assim, as acções da SpaceX oscilaram depois de uma subida inicial na terça-feira, tendo chegado a cair quase 9% nas negociações pós-mercado. Um possível motivo, segundo analistas, é o facto de os investidores se estarem a preparar para o fim do período de bloqueio (“lock-up”) pós-IPO, que expira esta quinta-feira e vai permitir aos primeiros investidores e funcionários da empresa vender até 912 milhões de acções.
Segundo a jornalista da Semafor Liz Hoffman, num artigo publicado esta terça-feira, os investidores mais pessimistas devem ter cuidado para não sobrestimar quantas dessas acções bloqueadas vão efectivamente chegar ao mercado — um erro que poderia obrigar a uma corrida para cobrir posições vendidas, um fenómeno conhecido como “short squeeze”.
A SpaceX estreou-se em Bolsa em Junho, na maior oferta pública inicial da história, que avaliou a empresa em cerca de 1,75 biliões de dólares. Desde então, contudo, as acções perderam cerca de mil milhões de dólares em valor de mercado e negoceiam abaixo do preço da própria estreia, reflectindo a incerteza dos investidores quanto ao ritmo de despesa da empresa e à rentabilidade a longo prazo da sua aposta na Inteligência Artificial — uma tensão que este primeiro relatório trimestral como empresa cotada em Bolsa não conseguiu resolver por completo, apesar do crescimento robusto da receita.