Internacional

Crise migratória em Ceuta: mais de 40 mil pessoas entram na cidade e Espanha entra em rota de colisão com Itália

Pedro Sánchez fala em “violação da integridade territorial” enquanto Meloni ameaça suspender o Espaço Schengen com Espanha; Finlândia junta-se à ameaça italiana e França reforça fronteiras

O presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, deslocou-se esta sexta-feira a Ceuta, no auge daquela que é já descrita como uma das piores crises migratórias da história recente de Espanha. Mais de 40 mil imigrantes entraram de forma irregular na cidade autónoma espanhola em apenas 48 horas, vindos de Marrocos, segundo as primeiras estimativas das forças de segurança — com alguns balanços a apontar já para cerca de 49 mil pessoas.

“O que aconteceu ontem foi um ataque, uma violação da integridade territorial de Espanha”, declarou Sánchez, no local. O chefe do Executivo espanhol agradeceu a cooperação de Marrocos para que se concretize “o mais rapidamente possível” a repatriação dos imigrantes, e anunciou o reforço do espigão fronteiriço com boias, criando uma barreira de contenção adicional na linha de fronteira com Marrocos.

O número de mortos entre quem tentou chegar a nado a Ceuta subiu para 27, segundo os balanços mais recentes — havendo, entretanto, relatos anteriores que apontavam para pelo menos 19 vítimas mortais, um número que continua a ser actualizado à medida que a situação evolui. Uma parte significativa das pessoas que entraram na cidade tem deambulado permanentemente pelas ruas desde ontem, tendo passado a noite ao relento, enquanto a travessia de pessoas pela fronteira a partir de Marrocos continua. O Governo de Melilla, por seu lado, confirmou que entre 300 e 400 pessoas entraram também durante a noite a partir de Marrocos naquele outro enclave espanhol.

Cenas de tensão à chegada de Sánchez

Segundo a imprensa espanhola, Sánchez e o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, foram recebidos em Ceuta por um grupo de cerca de 40 cidadãos concentrados junto ao helipuerto da cidade, que dirigiram ao ministro cânticos homofóbicos e insultos, acusando o Governo de “arruinar a hotelaria”, “vender Espanha” e “desproteger a fronteira” — um clima de forte contestação popular que reflecte a tensão social gerada pela crise.

Itália ameaça suspender Schengen com Espanha

A crise em Ceuta abriu, entretanto, uma frente diplomática de grande dimensão com Itália. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, ameaçou esta quinta-feira suspender a livre circulação de pessoas no Espaço Schengen com Espanha, na sequência da chegada massiva de migrantes a partir de Marrocos. “Reuni-me com o ministro do Interior, Matteo Piantedosi. A Itália não vai ficar de braços cruzados. Estamos a convocar os organismos competentes e, no final destas reuniões, estamos preparados para intervir também com instrumentos extraordinários para defender as fronteiras e a segurança dos cidadãos, como a suspensão do Espaço Schengen com Espanha”, declarou Meloni, sublinhando que “sobre a imigração clandestina não vamos recuar nem um milímetro”.

O ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, reiterou a ameaça nas redes sociais, escrevendo que “a imigração irregular e descontrolada representa um perigo para a segurança nacional” e que “as imagens vindas de Ceuta demonstram como a escolha [política espanhola]…” — uma crítica directa à gestão de Madrid. Itália justifica a possível suspensão de Schengen acusando Espanha de incentivar a imigração irregular, através da regularização de 500 mil pessoas efectuada nos últimos anos.

Espanha convoca embaixador italiano, mas não a embaixadora marroquina

O ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares, convocou o embaixador de Itália em resposta às declarações do Governo italiano — mas não convocou, pelo menos até ao momento, a embaixadora de Marrocos, Karima Benyaich. “Esta mensagem é imprópria do ministro dos Negócios Estrangeiros de um país parceiro e amigo, do qual esperamos solidariedade europeia e não demagogia partidária”, escreveu Albares, em resposta às críticas italianas.

Finlândia junta-se à Itália, França reforça fronteiras

A Finlândia juntou-se, entretanto, à proposta italiana, defendendo também a exclusão de Espanha do Espaço Schengen, enquanto a França reforçou o controlo nas suas próprias fronteiras face ao potencial efeito de contágio da crise. Segundo fontes comunitárias citadas pela imprensa espanhola, Bruxelas está a acompanhar de perto os acontecimentos em Ceuta, reiterando que o combate à imigração irregular, a defesa das fronteiras externas e a prevenção de abusos legais continuam a ser prioridades da Comissão Europeia — ao mesmo tempo que destaca a cooperação entre Espanha e Marrocos para garantir o retorno rápido de quem entrou de forma irregular na cidade autónoma. “Marrocos é um parceiro-chave e de confiança da UE. Nos últimos anos, intensificámos a cooperação em matéria de migração e gestão de fronteiras”, afirmou a Comissão.

Também os Estados Unidos criticam Madrid

A crise tem gerado ainda reacções fora da União Europeia, com os Estados Unidos a criticar publicamente a política migratória do Governo espanhol, segundo a imprensa internacional — um sinal de como o episódio de Ceuta ultrapassou já as fronteiras de um simples incidente bilateral entre Espanha e Marrocos, transformando-se numa crise com repercussões diplomáticas junto de vários parceiros internacionais de Madrid.

Um exército e uma cidade sob forte pressão

A situação em Ceuta — uma cidade com pouco mais de 83 mil habitantes — levou já à mobilização de efectivos do Exército e da Guarda Civil espanhola, com os centros de asilo completamente colapsados perante o afluxo de milhares de pessoas. Enquanto isso, centenas de pessoas continuam instaladas nas colinas próximas do perímetro fronteiriço, sem que, para já, tenham sido desalojadas pelas forças de segurança — ainda que a pressão migratória por terra tenha, segundo os últimos relatos, começado a diminuir junto à fronteira.

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