Internacional

Arábia Saudita lança coligação militar de 14 países para proteger a navegação no Golfo

Riade, que durante meses resistiu a envolver-se directamente no conflito, combate agora em três frentes — o Irão, os houthis no Iémen e milícias iraquianas apoiadas por Teerão

A Arábia Saudita anunciou esta quinta-feira o lançamento de uma nova coligação militar de 14 países para proteger a navegação no Golfo, à medida que o conflito entre os Estados Unidos e o Irão se alastra e os ataques dos houthis no Mar Vermelho se intensificam.

Segundo o Ministério da Defesa saudita, a chamada Aliança Multinacional de Defesa Marítima — que terá sede no reino árabe — inclui países como o Kuwait, o Catar, o Bahrein, o Paquistão, a Turquia, o Egipto e a Jordânia, e tem como objectivo proteger a liberdade de navegação, as rotas de comércio internacional e o abastecimento global de energia. A aliança foi estabelecida numa reunião de chefes de Estado-Maior e representantes de 43 países, além da União Europeia, para reforçar a segurança marítima no Mar Vermelho, no Golfo de Aden e no Estreito de Bab-el-Mandeb.

“A aliança é de natureza puramente defensiva, não tem como alvo nenhum Estado, aliança ou organização internacional, e conduz todas as suas actividades em total conformidade com o direito internacional, com respeito à soberania dos Estados e em defesa da liberdade de navegação”, afirma o comunicado saudita, que precisa ainda que os países signatários têm de concluir os “procedimentos internos necessários para a adesão formal”, convidando outros Estados a juntarem-se à iniciativa.

Riade combate agora em três frentes

Durante meses, Riade resistiu a ser arrastada para o conflito mais amplo entre os Estados Unidos e o Irão, iniciado a 28 de Fevereiro com ataques norte-americanos e israelitas a território iraniano. Mas a Arábia Saudita está agora a combater forças em três frentes distintas: o regime do Irão, os rebeldes houthis no Iémen, e milícias iraquianas alinhadas com Teerão — contra as quais Riade atacou esta semana, ao lado dos Estados Unidos.

A medida foi tomada depois de os houthis terem imposto, a 20 de Julho, um bloqueio marítimo contra a Arábia Saudita, acusando Riade de ter bombardeado o aeroporto de Sanaa a 13 de Julho. Os rebeldes lançaram desde então ataques contra infra-estruturas energéticas sauditas, tendo a Arábia Saudita respondido com acções militares contra posições houthis no porto de Hodeidah, no Iémen, alegadamente utilizado para ameaçar a navegação comercial.

Grupos alinhados com o Irão coordenam-se cada vez mais

Segundo a Reuters, os grupos alinhados com o Irão parecem estar a coordenar-se de forma cada vez mais estreita: os houthis conseguiram atacar a Arábia Saudita a partir de território iraquiano, uma escalada que ajuda a explicar os ataques conjuntos dos Estados Unidos e da Arábia Saudita contra as Forças de Mobilização Popular do Iraque — poderoso grupo paramilitar apoiado por Teerão e incorporado nas forças de segurança iraquianas —, que resultaram em pelo menos 20 mortos e 32 feridos, segundo o próprio grupo.

Esta operação conjunta marca também a primeira vez que Riade se junta publicamente a Washington em ataques contra alvos no Iraque, alargando potencialmente o conflito ao envolver directamente a Arábia Saudita, de maioria muçulmana sunita, em confronto com forças aliadas do Irão xiita, numa nova frente de guerra.

Egipto atingido por drones num porto no Mediterrâneo

O Egipto, um dos 14 países que integram a nova coligação marítima saudita, viu-se também arrastado para o conflito esta semana, depois de drones terem atingido um porto egípcio no Mediterrâneo, provocando um incêndio que atingiu dois navios. O Ministério do Petróleo egípcio confirmou o incêndio, garantindo que foi imediatamente contido e que não houve vítimas, embora não tenha confirmado tratar-se de um ataque com drones. Não houve, até ao momento, reivindicação de responsabilidade pelo incidente.

O episódio ocorre num contexto de forte deterioração da segurança regional: o Presidente norte-americano, Donald Trump, prometeu retaliar contra o Irão depois de forças iranianas terem atacado tropas dos Estados Unidos, dias depois de Washington ter suspendido temporariamente os seus próprios ataques aéreos. Teerão confirmou ter disparado contra bases norte-americanas na Jordânia e contra navios no Estreito de Ormuz, tendo ainda rejeitado uma proposta de Omã para uma administração conjunta do estreito.

Impacto directo nos preços do petróleo

A escalada tem alimentado fortes oscilações nos preços internacionais do petróleo, com o Brent a ultrapassar recentemente os 100 dólares por barril — o valor mais alto desde Maio —, antes de recuar para perto dos 90 dólares na sequência de uma trégua entretanto quebrada entre Washington e Teerão. Para economias exportadoras de crude, como a angolana, esta volatilidade prolongada no Médio Oriente e no Golfo Pérsico continua a representar tanto uma fonte de receita adicional em momentos de pico, como um factor de incerteza que dificulta o planeamento orçamental e desincentiva o investimento de mais longo prazo no sector petrolífero.

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