Internacional

Marrocos dá nome de Trump a autoestrada de mil milhões de dólares no Saara Ocidental

Autoestrada Tiznit-Dakhla, com mil quilómetros de extensão, atravessa o Saara Ocidental e reconhece o apoio de Trump à soberania marroquina sobre o território disputado

O rei Mohammed VI de Marrocos anunciou que a autoestrada Tiznit-Dakhla, uma das infra-estruturasmais estratégicas do país, passará a chamar-se “Autoestrada Presidente Donald J. Trump — A Estrada da Paz para a Prosperidade”. O anúncio foi feito este domingo pelo próprio Presidente norte-americano, numa publicação na rede social TruthSocial, e representa muito mais do que um gesto diplomático: a via é central para a ambição de Marrocos de se tornar uma porta de entrada comercial entre a Europa e a África Ocidental.

Com mais de mil quilómetros de extensão (1.055 quilómetros, segundo dados mais precisos avançados pela imprensa) e um custo estimado em cerca de mil milhões de dólares, a autoestrada liga a cidade de Tiznit, no sul de Marrocos, à península de Dakhla, no extremo sul do Saara Ocidental — território ocupado por Marrocos desde 1975 e reivindicado pela Frente Polisário. A via atravessa ainda outras cidades costeiras da região, incluindo El Aaiún, capital administrativa do Saara Ocidental sob controlo marroquino.

“Uma grande honra”, agradece Trump

No seu discurso, citado pela agência Europa Press, Donald Trump agradeceu ao rei de Marrocos pela distinção: “Obrigado ao muito respeitado Mohammed VI, Rei de Marrocos. Que grande honra. Espero poder percorrer toda esta grande autoestrada algum dia, espero que em breve”. O gesto marroquino é amplamente interpretado como reconhecimento pela decisão tomada por Trump em Dezembro de 2020, ainda no seu primeiro mandato, de reconhecer a soberania de Rabat sobre o Saara Ocidental — uma antiga colónia espanhola disputada há décadas entre Marrocos e a Frente Polisário, apoiada pela Argélia.

Ligação ao megaporto Atlântico de Dakhla

A extremidade sul da autoestrada, em Dakhla, vai ligar-se ao megaprojecto do Porto Atlântico da cidade, actualmente em construção e com inauguração prevista para 2028 — um porto de águas profundas avaliado em milhares de milhões de dólares que Rabat espera transformar num dos principais centros logísticos de África.

Em conjunto, a autoestrada e o futuro porto foram concebidos para sustentar a estratégia mais ampla de Marrocos de se posicionar como ponte comercial entre os mercados europeus e as economias africanas em rápido crescimento. O projecto integra ainda a chamada Iniciativa Atlântica de Marrocos, que procura dar aos países do Sahel sem acesso ao mar — como o Mali, o Níger ou o Burkina Faso — rotas comerciais alternativas através da costa atlântica marroquina.

Redução de custos logísticos e novas oportunidades de negócio

Para além de melhorar significativamente os transportes no sul de Marrocos, a autoestrada deverá reduzir os custos de transporte de mercadorias, melhorar a segurança rodoviária e diminuir os tempos de viagem para bens que circulam entre a Europa, Marrocos e a África Ocidental. Para as empresas, o corredor melhorado poderá facilitar a exportação de produtos agrícolas, pescado, bens manufacturados e minerais, além de atrair investimento para os sectores da logística, do turismo e do desenvolvimento industrial no sul do país.

Um território ainda em disputa

A localização da via confere-lhe também um peso geopolítico significativo, já que grande parte do trajecto atravessa o Saara Ocidental — território classificado pelas Nações Unidas como “não autónomo” e alvo de uma disputa que se arrasta desde a retirada espanhola da região, em 1975. Nessa altura, Marrocos e a Mauritânia anexaram partes do território, dando origem a um conflito armado com a Frente Polisário que se prolongou até 1991, ano em que as duas partes assinaram um cessar-fogo com vista à realização de um referendo de autodeterminação — nunca concretizado até hoje, devido a divergências sobre quem teria direito a votar.

Ao investir fortemente em infra-estruturas na região, Marrocos continua a reforçar a sua integração económica com o território, ao mesmo tempo queavança na afirmação da sua reivindicação histórica de soberania. O apoio mais recente ao plano de autonomia marroquino por parte de Espanha e França — descrito pela Frente Polisário como uma “traição” — reforça ainda mais este cenário, numa região onde a construção de infra-estruturas de grande escala continua indissociável da disputa política pelo controlo do território.

Um projecto com dez anos de gestação

O projecto da autoestrada Tiznit-Dakhla começou a ser desenvolvido em 2015, no âmbito do programa real para o desenvolvimento das províncias do sul do Saara Ocidental, tendo entrado em plena operação em meados de 2025. Com a atribuição do nome de Trump, Marrocos assinala assim, de forma simbólica, um projecto que resume a sua ambição mais ampla: transformar-se de economia norte-africana num verdadeiro corredor de comércio continental, capaz de ligar a Europa, Marrocos e a África Ocidental através de uma das infra-estruturasde transporte mais relevantes do continente.

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