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Custo do crédito trava revolução solar em África, apesar da queda histórica dos preços

Continente detém cerca de 60% dos melhores recursos solares do mundo, mas atrai apenas uma fracção do investimento global em energia limpa, penalizado por juros que chegam a ser o dobro dos praticados na Europa

O custo da energia solar caiu mais de 99% desde 1975, e África — grande parte do continente com forte exposição solar — deveria estar entre as principais beneficiárias dessa revolução tecnológica. Na prática, porém, o continente continua a atrair apenas uma pequena fatia do investimento global em energia limpa, travado não pela tecnologia, mas pelo custo do crédito.

Segundo um antigo economista-chefe do Banco Africano de Desenvolvimento, citado pelo Financial Times, o problema está na própria natureza das energias renováveis: são projectos de capital intensivo, em que quase todo o custo é pago antecipadamente e recuperado ao longo de décadas de operação. “Quando o capital é barato… as renováveis são a fonte de energia mais barata do planeta”, resume o especialista — mas em África a dívida chega a custar o dobro do que custa na Europa, o que inverte por completo essa equação económica.

Juros que podem chegar a três vezes mais do que na Europa

Os números confirmam a dimensão do problema. Segundo dados citados pela Enzi Ijayo e pela African Climate Insights, financiar uma central solar no Quénia ou no Senegal custa hoje entre 8,5% e 9% de juro, contra apenas 5% a 6% na Europa ou na América do Norte — o que significa que os países africanos pagam quase o dobro para financiar exactamente os mesmos projectos. Outras análises apontam diferenças ainda maiores: segundo a SolarQuarter, enquanto os países desenvolvidos conseguem financiamento verde a taxas entre 2% e 5%, nações africanas enfrentam, nalguns casos, custos de crédito que chegam aos 18%.

Esta desvantagem estrutural explica, em larga medida, um paradoxo há muito identificado por especialistas: África detém cerca de 60% dos melhores recursos solares do planeta e cerca de 30% das reservas mundiais de minerais críticos essenciais para veículos eléctricos, baterias e tecnologias renováveis — mas continua a atrair apenas entre 2% e 3% do investimento global em energia limpa, segundo dados da Comissão Europeia e da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).

Dívidas incumpridas alimentam a desconfiança dos investidores

A relutância dos credores internacionais em financiar projectos africanos a taxas competitivas não é infundada: o Chade, a Etiópia, o Gana e a Zâmbia entraram já em incumprimento da sua dívida soberana nos últimos anos, enquanto o Malawi, Moçambique e o Senegal são hoje considerados países em risco elevado de o fazer. Este historial de instabilidade financeira acaba por penalizar todo o continente, incluindo países com fundamentos económicos mais sólidos.

O problema agrava-se ao nível das empresas: os custos de financiamento para o sector privado são, em regra, ainda piores do que os enfrentados pelos próprios governos, o que dificulta particularmente a capacidade das empresas africanas de aproveitar a queda vertiginosa do preço dos painéis solares para desenvolver novos projectos.

“Tecto soberano” penaliza mesmo projectoscomercialmente sólidos

Analistas citados pela agência Associated Pressidentificam ainda outro obstáculo estrutural: a chamada regra do “tecto soberano” (sovereignceiling), segundo a qual projectos de energia renovável em países com notação de crédito soberana fraca herdam automaticamente essa percepção de risco — mesmo quando os projectos em si são comercialmente sólidos e contam com garantias internacionais. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), estas avaliações de risco, consideradas por vezes subjectivas, custam aos países africanos até 74,5 mil milhões de dólares por ano, entre juros mais elevados e oportunidades de investimento perdidas.

Como resultado, muitos governos africanos acabam por gastar hoje mais em serviço da dívida do que em infra-estruturas, educação, saúde ou desenvolvimento industrial, segundo o relatório Africa Pulse do Banco Mundial — um ciclo que, segundo analistas, transforma a “transição verde” num simples adiamento do crescimento económico, em vez de um verdadeiro motor de desenvolvimento.

Um objectivo continental por cumprir

O contraste entre potencial e execução é elucidativo: em 2024, o mundo acrescentou um recorde de 585 gigawatts de capacidade renovável, um aumento de 15,1% face ao ano anterior. África, que tinha fixado como meta atingir 300 gigawatts de energia renovável até 2030, conseguiu acrescentar apenas quatro gigawatts nesse mesmo ano — uma fracçãoresidual do objectivo traçado. Segundo dados mais recentes, a quota de capacidade solar, eólica e geotérmica no continente cresceu de menos de 2%, em 2020, para cerca de 8%, em 2024, traduzindo-se em quase 30 gigawatts de capacidade instalada até ao final desse ano.

Face a este cenário, especialistas têm defendido que aumentar apenas o volume de financiamento climático disponível não resolverá, por si só, o problema — sendo necessárias reformas mais profundas nos critérios de avaliação de risco e nos instrumentos de financiamento disponíveis para os países africanos, de forma a permitir-lhes finalmente capitalizar o potencial solar que já possuem, mas que continuam, na prática, a não conseguir transformar em electricidade.

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