Mercados Financeiros

Banca angolana está mais sólida mas ainda presa ao crédito de curto prazo e ao sector público

A banca angolana está mais sólida, mas continua excessivamente dependente do crédito de curto prazo e do financiamento ao sector público, considerou o administrador executivo do Banco Millennium Atlântico, Sidney Magalhães, no painel “Capital e Confiança: os motores do investimento entre Angola e Portugal”, da conferência Doing Business Angola 2026, em Lisboa. Segundo o banqueiro, Angola está a progredir no caminho para uma maior estabilidade macroeconómica e financeira, ainda que esse processo não esteja concluído.

Sidney Magalhães apontou a melhoria dos indicadores nominais do sistema financeiro como sinal desse progresso: a taxa de referência do Banco Nacional de Angola (BNA) desceu de 70% para 15,7%, o país aproxima-se de uma inflação de um dígito — esperada nos 8,6% — e o rating soberano angolano “tem estado bastante estável nos últimos anos”. Para o gestor, estes indicadores mostram que o país está a consolidar a estabilidade necessária para atingir os objectivos estruturais definidos para 2030.

Apesar dos progressos, o administrador alertou para os desafios estruturais da economia angolana, em particular a “dependência fiscal muito grande” face ao sector petrolífero, que representa hoje cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) mas continua a pesar 60% nas receitas fiscais e 90% na capacidade de exportação do país — uma exposição que, defendeu, só será reduzida com o avanço das reformas estruturais e da diversificação da economia nos próximos anos.

Quanto ao sistema financeiro, Sidney Magalhães afirmou que o sector bancário está hoje “muito mais estável”, com rácios de solvabilidade a rondar os 24%, bem acima do mínimo regulamentar de 10%. Alertou, contudo, para o facto de os activos da banca angolana corresponderem a cerca de 21% do PIB, enquanto o crédito ao sector privado representa apenas cerca de 8% — um desequilíbrio que, na sua leitura, reflecte a forte concentração do sistema no financiamento de curto prazo. “É necessário, naturalmente, começarmos a olhar para o crédito mais a médio ou a longo prazo”, defendeu, apontando também o papel do mercado de capitais — ainda muito dependente do financiamento ao Estado — e do sector segurador na diversificação das fontes de financiamento da economia angolana, defendendo maior participação de investidores privados, novos instrumentos financeiros e mais liquidez, bem como um papel reforçado das seguradoras como investidor institucional.

No painel, moderado no âmbito da conferência promovida pelo Jornal Económico e pela Forbes África Lusófona, participaram ainda Emanuela Vunge, managing partner da Prime Advogados, da VdA Legal Partners, Carlos Firme, CEO da Fortaleza Seguros, e Eline Feijão, administradora executiva do Banco Atlântico Europa.

O Banco Millennium Atlântico, resultante da fusão entre o Millennium Angola e o Banco Atlântico, tem como accionistas a Interlagos Equity Partners(29,77%), o BCP África/Millennium BCP (22,53%), o Sotto Financial Group (19,80%), a Jasper Capital Partners (18,12%) e outros investidores (9,78%).

 

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