A cerimónia de demissão formal de Keir Starmer no Palácio de Buckingham, inicialmente marcada para o início da manhã da próxima segunda-feira, dia 20 de Julho, foi adiada para o final da manhã devido à participação de Inglaterra no Mundial de futebol, avança o The Guardian. Caso a selecção inglesa vença a Argentina na meia-final e chegue à final de domingo, em Nova Jérsia, Starmer poderá mesmo assistir ao jogo antes de regressar a Londres, num voo governamental, para cumprir o último acto do seu mandato: recomendar ao Rei que seja Andy Burnham a formar o próximo Governo trabalhista.
Independentemente do desfecho do Mundial, Burnham está já matematicamente confirmado como próximo primeiro-ministro do Reino Unido, depois de ter conquistado o apoio de 349 deputados trabalhistas — incluindo todos os membros elegíveis do actual gabinete de Starmer. Depois de garantir 322 apoiantes na semana passada, o deputado por Makerfield somou esta segunda-feira mais 27 nomeações, um nível de apoio que torna matematicamente impossível a qualquer rival reunir as candidaturas necessárias para o desafiar. Segundo as regras do Partido Trabalhista, os candidatos à liderança precisam do apoio de 20% dos deputados — 81 num total de 403 — para serem nomeados.
Burnham sucede oficialmente a Starmer na liderança do Partido Trabalhista já no dia 17 de Julho, antes de entrar no número 10 de Downing Street e se tornar primeiro-ministro a 20 de Julho.
O ex-autarca de Manchester tem usado um comício online com o Partido Trabalhista Parlamentar (PLP) para exortar os deputados a unirem-se em torno da sua liderança. Burnham promete formar um gabinete “inclusivo”, tal como é tradição no movimento trabalhista, e garante que todas as nomeações da próxima semana vão reflectir a ideia de que o partido, sob a sua liderança, representará todas as sensibilidades internas, tendo em conta “a contribuição, a experiência e o empenho”. Numa tentativa clara de restabelecer as relações entre o número 10 e os deputados trabalhistas, comprometeu-se ainda a criar uma “equipa e uma cultura onde todos sejam valorizados, vistos e ouvidos”, prometendo ser “responsável, visível e acessível” e promover um circuito de feedback entre deputados, comunidades locais e Governo, que considera indispensável para melhorar a definição e aplicação das políticas públicas.
Burnham afirmou também que a sua administração se vai concentrar em garantir um bom crescimento em todas as zonas do país, delegando mais poderes às comunidades locais e colocando o custo de vida no centro das prioridades do Governo. O seu foco na descentralização, e a defesa de uma maior aposta no norte de Inglaterra, deixou já alguns deputados trabalhistas preocupados com a possibilidade de que apenas os aliados com círculos eleitorais no norte do país — ou aqueles ligados ao que alguns descrevem como o “movimento trabalhista azul” — venham a colher benefícios imediatos da sua liderança e das suas políticas.
Andy Burnham iniciou o discurso desta segunda-feira com uma homenagem à ex-deputada conservadora Ann Widdecombe, encontrada morta em casa na semana passada, com a polícia britânica a deter um homem suspeito do seu homicídio. Burnham afirmou que os pensamentos do Partido Trabalhista estão com a família e amigos de Widdecombe, e instou os políticos a concederem à polícia “os recursos e a margem de manobra de que necessitam” para investigar a sua morte.
Burnham elogiou ainda Keir Starmer por ter aprovado a lei de Hillsborough — que obriga todos os funcionários e organismos públicos a serem totalmente transparentes em inquéritos públicos, investigações ou processos judiciais —, salientando que o primeiro-ministro cessante cumpriu a promessa que fez às famílias das vítimas do desastre de 1989, antes de dizer aos deputados que o país espera que o Partido Trabalhista se una neste “momento significativo” para o Reino Unido.
Entre as novas nomeações de segunda-feira contaram-se os ministros adjuntos Chris Bryant e Mike Tapp, a ex-ministra Jess Phillips e Richard Burgon, secretário do Grupo de Campanha Socialista, de esquerda, dos deputados trabalhistas. Juntou-se-lhes também o secretário das Comunidades, Steve Reed, aliado próximo de Starmer que, na semana passada, tinha sido o único membro do gabinete a não nomear Burnham. Por convenção, Shabana Mahmood e Anna Turley não nomeiam ninguém, dados os seus cargos como presidentes, respectivamente, do Comité Executivo Nacional (NEC) do Partido Trabalhista e do próprio partido; também por convenção, Starmer, na qualidade de líder cessante, não participa no processo de nomeações.