“Esta noite sou candidata às eleições presidenciais e não vou mudar de opinião.” Foi assim que Marine Le Pen, em entrevista ao telejornal da TF1, anunciou a sua candidatura ao Eliseu para as presidenciais de 2027, horas depois de o Tribunal de Recurso de Paris ter confirmado a sua condenação por desvio de fundos públicos europeus.
A líder da extrema-direita francesa declarou-se inocente perante o veredicto, pronunciado no início da tarde, e afirmou recorrer à última instância possível, o Tribunal de Cassação.
“Fiquei contente por ter sido devolvida aos franceses a sua liberdade de votar e por me ter sido devolvida a minha elegibilidade”, declarou ainda Marine Le Pena propósito da redução da sua pena de impossibilidade de exercer cargos públicos, proferida em recurso, e que lhe permite, tecnicamente, apresentar-se às presidenciais do próximo ano. Isto porque já passaram os 15 meses de inelegibilidade agora decretados, uma vez que a primeira sentença é de Março de 2025.
A verdadeira pedra no sapato — neste caso, no calcanhar — é a pena de prisão pronunciada pelo tribunal, que a obrigaria a usar, durante um ano, uma pulseira eletrónica. Porém, a líder do Reagrupamento Nacional (RN) reafirmou que fará campanha sem a pulseira, uma vez que, na prática, o recurso para o Tribunal de Cassação suspende os efeitos da sentença.
“O interesse de Le Pen, ao interpor recurso para o Tribunal de Cassação, é apresentar-se às eleições presidenciais como inocente e evitar a aplicação da pulseira eletrónica”, explica ao Expresso o jurista Nicolas Hervieu, da Escola de Direito do Instituto de Estudos Políticos de Paris.
Hervieu diz mesmo que o “cenário ideal” para a deputada seria que o Tribunal de Cassação se pronunciasse depois da data das eleições: assim, se for eleita Presidente, “os processos que lhe dizem respeito ficarão suspensos durante todo o seu mandato”, de acordo com a Constituição francesa.
Em causa está o caso dos assistentes parlamentares europeus da Frente Nacional, que passou a chamar-se RN em 2018, e a alegada utilização fraudulenta, entre 2004 e 2016, de fundos europeus destinados a contratos de assistentes parlamentares que, na prática, trabalhavam total ou parcialmente para o partido.
Esta nova sentença resultou do recurso interposto pela líder da extrema-direita contra a sentença pronunciada em 2025, na qual foi condenada a quatro anos de prisão — dois em pena suspensa e dois em pena efetiva — e a cinco anos de inelegibilidade, impedindo-a de se candidatar ao Eliseu.
O tribunal estimou o prejuízo total em 2,9 milhões de euros, desviados “ao longo de três legislaturas”, uma vez que os eurodeputados do RN terão feito com que “o Parlamento Europeu pagasse a pessoas que estavam efetivamente a trabalhar para o partido” de extrema-direita. O que o tribunal imputou a Le Pen e a outros onze arguidos foi terem criado “um sistema para que os fundos necessários ao recrutamento de assistentes parlamentares europeus fossem também utilizados para que esses assistentes trabalhassem, na verdade, para o partido”, explica o jurista Nicolas Hervieu.
Le Pen candidata-se pela quarta vez, com Bardella do seu lado
A líder parlamentar do RN vai candidatar-se pela quarta vez às presidenciais francesas, depois de ter chegado à segunda volta em 2017 e em 2022, em ambos os casos derrotada pelo atual Presidente, Emmanuel Macron.
Le Pen afirmou também que o seu delfim, JordanBardella, será o seu primeiro-ministro se for eleita Presidente em 2027. “Penso que esta dupla política que formamos pode realmente mudar as coisas. Pode representar um novo fôlego para o nosso país e mudar o quotidiano dos franceses”, afirmou a deputada de 57 anos.
Para além do equilíbrio, da coerência e da solidez que a líder da extrema-direita atribui à dupla que forma com o eurodeputado de 30 anos, as duas figuras têm linhas políticas diferentes: a veterana tem preocupações mais sociais, enquanto o seu protegido tem um pendor mais liberal.
“Vão ter um problema muito grave no Reagrupamento Nacional, o problema orçamental: ou aumentam os impostos ou reduzem as despesas e, nisto, os dois candidatos têm abordagens diferentes”, diz Luc Rouban, investigador do Centro de Investigação Política do Instituto de Estudos Políticos de Paris.
A própria Le Pen reconhece a diferença: “Não sou nem de direita nem de esquerda”, afirmou, admitindo que Bardella “é mais à direita”. Estas divergências fizeram-se notar em temas como a reforma das pensões de Macron, que elevou a idade legal de reforma de 62 para 64 anos. Bardella chegou a declarar que o RN estava “a analisar” a medida e a ponderar um ajuste do sistema para garantir a estabilidade financeira, tendo sido de imediato contrariado por Le Pen, que reafirmou o compromisso de regresso aos 62 anos.
A antiga presidente do partido, eleita deputada pelo Pas-de-Calais — região do norte de França fortemente desindustrializada desde meados do século XX e onde o partido tem presença histórica —, privilegiou sempre uma abordagem transversal, capaz de reunir eleitorado popular e de classe média em todo o espectro político. Bardella move-se na lógica da “união das direitas”, e o seu programa mais liberal serve-lhe para captar o eleitorado do partido gaullista Os Republicanos, da direita tradicional.
“Bardella tem um lado mais mediático, como se costuma dizer. Vive um romance com uma princesa [Maria Carolina de Bourbon-Duas Sicílias] e frequenta os círculos empresariais”, explica ao Expresso a socióloga Nonna Mayer, do Instituto de Estudos Políticos de Paris.
“Apesar das diferenças de fundo, estes dois candidatos partilham um programa estruturado da mesma forma: querem instaurar a prioridade nacional em França e inscrevê-la na Constituição, princípio contrário à Constituição atual, às Constituições anteriores, às convenções europeias e aos direitos humanos”, prossegue a perita. “Ou seja, reservar os empregos, a habitação e os apoios sociais aos franceses. E, quanto a isso, têm exatamente as mesmas ideias. Deste ponto de vista, trata-se do mesmo perigo para a democracia.”