Durante décadas, os países ricos do Golfo Árabe observaram as guerras da região pelas televisões. A guerra acontecia aos vizinhos — no Iémen, na Síria, em Gaza. Nunca a eles. Essa ilusão foi destruída pela guerra entre os EUA, Israel e o Irão, que abalou a segurança das monarquias do Golfo, perturbou as suas economias ricas em energia e as obrigou a repensar as suas estratégias de defesa. As bases militares americanas instaladas no seu território — que deveriam protegê-las — tornaram-nas alvos de milhares de mísseis e drones iranianos.
O conflito aparenta estar encerrado, pelo menos por agora. Mas o acordo que emerge entre Washington e Teerão preocupa profundamente as capitais do Golfo, que consideram que ele pouco faz para eliminar a ameaça iraniana. Em reconhecimento tácito dessas preocupações, o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, visitou esta semana vários líderes árabes da região. “Não vamos fazer nada que comprometa a segurança dos nossos aliados”, disse em Kuwait. No Bahrein, após uma reunião com ministros dos Negócios Estrangeiros do Golfo, Rubio reconheceu que estes partilharam “preocupações muito concretas” e comprometeu-se a incluí-los em cada etapa das negociações com o Irão.
As cenas que se desenrolaram nos últimos meses em Dubai e Doha — explosões massivas, torres de luxo em chamas — eram inimagináveis para a maioria dos residentes. Pais abrigaram-se com os filhos em corredores enquanto os alertas de mísseis disparavam nos telemóveis. Nos Emirados, escolas fecharam durante semanas e residentes estrangeiros abastados fugiram. Mais de 30 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas, apesar de a grande maioria dos ataques ter sido interceptada. “Deixou uma ferida profunda”, disse Khalid Al-Jaber, directorexecutivo do Middle East Council on Global Affairs, no Qatar. “Vai demorar muito, muito tempo a recuperar.”
A guerra também expôs e aprofundou as diferenças entre os países do Golfo, em vez de os unir. Os Emirados reforçaram a aliança com os EUA e Israel. O Qatar trabalhou como mediador nas negociações. A Arábia Saudita procurou manter as opções em aberto, influenciando Washington enquanto mantinha canais abertos com Teerão. Omã — que possui portos no Mar da Arábia, fora do estreito de Ormuz — tornou-se num inesperado hub logístico regional, recebendo mercadorias por via marítima e distribuindo-as por via terrestre aos vizinhos.
Um dos impactos mais duradouros é a reavaliação da dependência do estreito de Ormuz. O fecho efectivodo estreito pelo Irão durante o conflito obrigou os países do Golfo a repensarem o escoamento do petróleo, do gás e da importação de alimentos. Os Emirados anunciaram uma estratégia de “dependência zero do Ormuz”, expandindo portos no exterior do estreito e construindo pipelines e ferrovias alternativas.
No plano político, o acordo preliminar entre os EUA e o Irão gerou frustração nos bastidores das capitais do Golfo. O texto faz pouca menção às preocupações regionais — o arsenal de mísseis e drones do Irão ou o apoio de Teerão a milícias regionais foram ignorados. Na segunda-feira, a administração Trumplevantou temporariamente as sanções petrolíferas ao Irão, o que poderá traduzir-se num impulso económico significativo para Teerão. O escritor saudita Abdulrahman al-Rashed, próximo da liderança do reino, escreveu que o acordo “reabilita o regime de Teerão como potência regional” e que os benefícios financeiros que lhe conferirá “farão do Irão um monstro maior do que era antes”.
A sugestão americana de que os países do Golfo poderiam contribuir para um fundo de reconstrução do Irão de 300 mil milhões de dólares teve uma recepção glacial. “Há a percepção de que a administração Trump nos vê como uma caixa multibanco”, disse Al-Jaber. “Isso incomoda muita gente.”
Do lado da defesa, a nova realidade geopolítica está a acelerar o rearmamento. O optimismo da última década — marcado por projectos grandiosos e uma sensação de invulnerabilidade — deu lugar a uma aposta crescente em capacidade militar própria. Há ainda quem defenda que os países do Golfo deveriam iniciar negociações directas com o Irão, procurando um pacto de não-agressão bilateral independente do quadro americano.
Por entre as ruínas, porém, emerge também uma leitura diferente. “Provámos a nós próprios que somos mais resilientes do que pensávamos”, disse Mahdi Ghuloom, investigador do Bahrein. “Pode haver um lado positivo” naquilo que a guerra forçou os países do Golfo a aprender sobre si mesmos.
Artigo publicado originalmente no The New York Times