Kemi Badenoch promete uma “revolução económica” na City de Londres, com os Conservadores a comprometerem-se a eliminar a burocracia pós-crise financeira que está a travar os bancos britânicos. O primeiro grande discurso financeiro da líder conservadora é uma tentativa de virar a página do desastre Truss e reconquistar as credenciais do partido como aliado natural do capital.
Kemi Badenoch prometeu esta semana uma “revolução económica” à City de Londres e colocou os Conservadores no papel que sempre consideraram seu por direito: o de aliado natural do capital. O discurso — o seu primeiro grande endereço focado nos serviços financeiros — foi uma declaração de intenções sobre o futuro do partido, mas também um ajuste de contas com o seu passado recente.
A sombra de Liz Truss continua a pairar sobre a City. Os 49 dias de governo de Truss, em 2022 — marcados por um mini-orçamento que fez disparar as yields dos giltse a libra cair para mínimos históricos — cortaram relações entre os Conservadores e o sector financeiro de uma forma que o Partido Trabalhista tem explorado discretamente desde então. A mensagem de Badenoch é simples: os Conservadores estão de volta.
“A Grã-Bretanha tornou-se demasiado avessa ao risco”, disse, citada pelo Financial Times. “A indignação pública e a cautela política criaram um ambiente em que a City é cada vez mais tratada como um problema a gerir, e não como um activo a defender. Os reguladores dos serviços financeiros estão a afogar a City em regulamentação mal redigida em resposta à pressão política e mediática.”
A ambição declarada é grande: a reforma económica que o país precisa tem de ser “maior que o Big Bang” — a referência é à desregulação financeira de 1986 promovida por Margaret Thatcher, que transformou a City de Londres numa das praças financeiras mais competitivas do mundo. O programa de cinco pontos de Badenoch apela à redução dos custos de energia, a mercados laborais mais flexíveis, cortes de impostos, desregulação e apoio político a quem assume riscos. O argumento de fundo é que uma década de regulação excessiva — reflexo da ressaca da crise financeira de 2008 — afastou fundos de pensões, seguradoras, bancos e investidores privados dos activos produtivos britânicos.
“Não faço acordos com Nigel”
No Times CEO Summit, onde também discursou a chanceler Rachel Reeves, Badenoch foi mais longe na definição da estratégia política dos Conservadores. O partido posicionar-se-á como a resposta a duas perguntas em simultâneo: como remover o Labour do poder e como travar o avanço do Reform UK de Nigel Farage. “Somos o partido do ‘impedir o Labour e impedir o Reform'”, disse, excluindo qualquer coligação pós-eleitoral com Farage.
A questão foi colocada directamente: e se o Reform ficasse a 81 lugares de uma maioria e precisasse de um parceiro? “Nenhuma hipótese”, respondeu. “Sou muito, muito clara. Não faço acordos com Nigel.” E depois das eleições? “É a mesma coisa. Um acordo sobre o quê? Ele quer nacionalizar. Quer mais benefícios. Quer um Estado maior — só que sob o seu controlo. Isto vai contra muitas das coisas em que acreditamos.”
A análise política que faz do ciclo eleitoral britânico é lúcida. As eleições de 2024, diz, não foram sobre quem os britânicos queriam a governar — foram sobre como tirar os Conservadores do poder. “O erro de KeirStarmer foi acreditar que havia um grande amor pelo Labour. Não havia — e por isso entrou em dificuldades, porque não havia uma agenda nem princípios que sustentassem isso.” As próximas eleições, acredita, girarão em torno de uma pergunta diferente: quem vai resolver a economia? “Quem vai aumentar os meus salários? Quem vai criar empregos reais, não empregos criados pelo Estado sem produtividade?”
O problema da credibilidade
O desafio é que os Conservadores prometem sempre baixar impostos — e na última vez que governaram deixaram a taxa de impostos no nível mais alto do pós-guerra. Badenochreconhece o problema sem o contornar: “Tens razão. Houve muita ‘nova gestão’, e acho que com o Labour vamos ver também nova gestão. Está a ficar mais difícil governar porque as pessoas estão a afastar-se dos princípios fundamentais.”
Para provar que será diferente, apela ao seu próprio historial. Quando era Secretária de Estado dos Negócios, desregulou e cortou legislação de auditoria empresarial que, na sua opinião, só servia para dar mais trabalho às grandes consultoras sem beneficiar o sistema. “Recebi muitas mensagens a dizer ‘obrigado’. Ninguém queria isto, ainda bem que alguém usou o bom senso.” A KPMG queixou-se publicamente — e Badenochinterpreta isso como um elogio. “Havia muito trabalho de consultoria que seria ótimo para a KPMG, mas não para o sistema.”
O ministro-sombra do Tesouro conservador, Mark Garnier, acrescentou uma nota de autocrítica que resume bem o problema estrutural do partido: os custos de conformidade representam agora cerca de 15% da facturação dos bancos, disse, mas os Conservadores nunca deram aos reguladores cobertura política suficiente para assumirem riscos. “Quando dissemos que o risco era aceitável, nunca demos cobertura política aos reguladores. Quando algo corre mal, são massacrados pelos jornais.”
A City ouve — mas com cautela
O desafio para Badenoch é que não é a única a fazer este discurso. O Reform UK lançou a sua própria ofensiva junto à City, prometendo retirar a regulação bancária à Financial Conduct Authority e devolvê-la ao Banco de Inglaterra. Em partes da praça financeira londrina, o Reform — outrora descartado como partido marginal — começa a ser levado a sério.
Os próprios lobistas da City são cautelosos em transformar isto numa disputa partidária. Miles Celic, presidente executivo da TheCityUK, notou que existe “um encorajador consenso entre partidos sobre muitas das grandes questões”, com o Partido Trabalhista a construir sobre muito do trabalho feito pelos Conservadores no Governo. “O desafio agora não está nas políticas — está na execução.”
Nas sondagens, os Conservadores mantêm-se estáveis nos 17 pontos. A popularidade pessoal de Badenoch melhorou — de -32 para perto de -8 —, mas não há ainda um “efeito Kemi” que se traduza em votos para o partido. “Sou a líder menos odiada!”, brincou no summit. É um começo. Se é suficiente para chegar ao Governo, as odds da Ladbrokes sugerem que não: 9:2 contra.
Kemi Badenoch, 44 anos, é líder do Partido Conservador do Reino Unido desde Novembro de 2024 e, por inerência, líder da oposição no Parlamento britânico. Filha de pais nigerianos, nasceu em Londres, cresceu entre o Reino Unido e a Nigéria e formou-se em engenharia de sistemas antes de trabalhar em tecnologia e banca. Eleita deputada em 2017 pelo círculo de NorthWest Essex, ocupou vários cargos ministeriais nos governos de Boris Johnson e Rishi Sunak. Representa a ala liberal-conservadora em economia — inspirada na tradição thatcheriana — e culturalmente conservadora em temas sociais, sendo uma das vozes mais proeminentes do campo anti-“woke” na política britânica actual.