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Peter Thiel e Karp querem salvar o Ocidente. Com dados, algoritmos e sem pedir desculpa

Não é apenas mais uma empresa de tecnologia com contratos governamentais. A Palantir — fundada por Peter Thiel e Alexander Karp em 2003 — posiciona-se como algo mais ambicioso e mais perturbador: o garante tecnológico da ordem ocidental. E esta Primavera, publicou um manifesto para o dizer em voz alta.

Em Abril de 2026, a empresa divulgou um texto de 22 pontos que resume o livro co-escrito por Karp e pelo responsável de assuntos corporativos Nicholas Zamiska, TheTechnological Republic. O manifesto acumulou 32 milhões de visualizações e desencadeou uma onda de reacçõesinternacionais — algumas de entusiasmo, muitas de alarme. A acusação mais frequente: “tecnofascismo”.

O argumento central é simples e radical. A sobrevivência da civilização ocidental depende de as elites tecnológicas participarem activamente na defesa nacional. O Silicon Valley, que deve ao Estado americano a ordem e a prosperidade que tornaram o seu ascensão possível, tem uma “dívida moral” — e recusar-se a contribuir para a defesa é, na visão de Karp e Thiel, uma forma de traição. Quanto à inteligência artificial aplicada a sistemas de armamento: inevitável. A questão, argumentam, não é se será feita, mas por quem. Melhor pelos EUA do que pela China ou pela Rússia.

“Nenhum outro país na história do mundo promoveu mais os valores progressistas do que este”, lê-se no manifesto — uma frase que os críticos classificaram de supremacismoocidental e que alguns académicos compararam à retórica da Guerra Fria com roupagem tecnológica.

Mas a Palantir não é apenas discurso. É negócio — e negócio em aceleração. No primeiro trimestre de 2026, a empresa cresceu 85%, com receitas que sobem 71% em base anual. Os contratos com o Governo federal norte-americano abrangem o Departamento de Defesa, os Serviços de Imigração e Alfândegas (ICE) e o Departamento de Segurança Interna. A empresa trabalha também com o exército israelita e com o Governo britânico, e está presente em pelo menos 12 países com capacidades semelhantes.

É esta proximidade ao poder — e a convicção de que essa proximidade é legítima e necessária — que distingue a Palantir das empresas tecnológicas que preferem manter distância das questões de defesa e segurança. Thiel foi um dos primeiros e mais influentes apoiantes de Donald Trump, tendo também desempenhado um papel relevante na ascensão do vice-presidente JD Vance. Karp, philosophically heterodox — formou-se em teoria social em Frankfurt — é o rosto público de uma empresa que não se envergonha de dizer que o domínio tecnológico dos EUA é um bem para o mundo.

Os críticos vêem nisto algo mais sombrio: uma empresa que constrói ferramentas de vigilância em massa, alimenta a máquina burocrática da deportação e vende inteligência artificial para uso militar, embalada numa narrativa de missão civilizacional. Os defensores respondem que alguém tem de o fazer — e que é preferível que seja uma empresa que acredita na democracia liberal.

O que está fora de dúvida é que a Palantirdeixou de ser um actor de segundo plano. É hoje, nas suas próprias palavras, “o sistema operativo do Ocidente”. Se essa descrição é uma promessa ou uma ameaça depende de onde se está sentado.

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