Adebayo Vunge não vê razões para celebrar o aniversário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O consultor e escritor angolano considera que a organização falhou política e culturalmente — e que só a “prudência diplomática” impede que os países admitam em voz alta o que já pensam em privado.
A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa completa 30 anos a 17 de Julho. Para AdebayoVunge, não há muito a celebrar. “Creio que a CPLP é um espaço sobre o qual se deveria pensar, no sentido ou de se redinamizar ou mesmo de a extinguir, porque não se sente”, afirmou o consultor e escritor angolano em entrevista à Lusa, à margem da apresentação dos seus livros na Feira do Livro de Lisboa, onde defendeu o que chama de ‘três choques para a transformação do quadro em Angola: Educação para criar competências. Crédito para criar riqueza. Autarquias para criar desenvolvimento.
Voltando ao tema da CPLP, Vunge define a organização como “quase inútil” e considera que o questionamento sobre a sua utilidade é generalizado entre os países lusófonos — mas raramente dito em voz alta. “Mesmo só por uma certa prudência diplomática… Mas, enquanto cidadãos, nós muitas das vezes questionamos a utilidade da organização, para não dizer que não encontrámos resposta satisfatória a essa questão.”
A questão dos vistos é, para o autor, o exemplo mais “flagrante” do falhanço da CPLP. Uma organização fundada na língua e na história comum que não conseguiu garantir mobilidade efectiva entre os seus membros revela, na sua leitura, uma contradição de fundo. A nova lei da nacionalidade portuguesa surge nesse contexto como um caso sensível: Vungeconsidera que, olhando para o histórico da relação entre Angola e Portugal, “esperava-se que a lei não vingasse nestes termos.” Cada Estado “deve preservar o seu melhor interesse”, reconhece — mas admite que os países prejudicados podem responder de forma que “sirva quase como retaliação”, com consequências nas relações entre pessoas que são, sublinha, “mais profundas e mais antigas do que a relação entre os Estados.”
Questionado sobre as mais recentes polémicas da política angolana, nomeadamente a intenção do Presidente, João Lourenço, (impedido constitucionalmente de avançar para um terceiro mandato) de se candidatar à presidência do MPLA, afirma que as dinâmicas dos partidos políticos são marcadas por “alguma conflitualidade”, mas confia que haja “maturidade” e que o processo decorra num quadro, “primeiro, legal”, mas também “ético e republicano”.
Perante afirmações feitas sobre João Lourenço, acusado por outros pré-candidatos à liderança do MPLA de querer permanecer como “figura tutelar” do partido e assim influenciar a escolha do próximo Presidente, e perpetuar o seu poder, admite ser “uma leitura”, mas sublinha que “os factos serão determinantes”, sendo “prematuro” tirar conclusões.
Adebayo Vunge é autor de quatro livros, consultor estratégico, docente e administrador independente na Unitel Money. Tem passagem pela TPA, Novo Jornal e Jornal de Angola, foi director de Comunicação Institucional do Ministério das Finanças e adido de imprensa da Embaixada de Angola em França.