Mercado & Finanças

INSS opera com sistemas “em fim de vida”

O Instituto Nacional de Segurança Social vai gastar 8 milhões de dólares num novo data center e centro de backup. O despacho presidencial que autoriza a despesa revela o motivo: a infraestrutura actual está obsoleta e representa “um risco elevado” para a continuidade dos serviços e a segurança dos dados de milhões de beneficiários.

A instituição que gere as contribuições e prestações sociais de Angola opera com tecnologia “em fim de vida”. É o próprio Presidente da República que o reconhece no Despacho Presidencial n.º 228/26, de 10 de Junho, que autoriza uma despesa de 7,3 mil milhões de kwanzas — cerca de 8 milhões de dólares — para aquisição de um novo data center e centro de backup para o INSS.

A linguagem técnica do despacho não deixa margem para interpretação: a infraestrutura actual representa “um risco elevado” para a continuidade dos serviços e para a segurança da informação. Numa instituição que centraliza dados de contribuintes, historial de descontos, registos de pensões e prestações sociais, um sistema em colapso não é apenas um problema informático — é uma ameaça directa à capacidade do Estado de cumprir os seus compromissos com os cidadãos. Uma falha grave poderia comprometer pagamentos de pensões, impossibilitar verificações de elegibilidade ou expor dados pessoais sensíveis de trabalhadores e beneficiários.

O problema tem ainda outra dimensão: o INSS não dispõe sequer de um centro de backup operacional. A implementação desse sistema de redundância — que em qualquer organização com dados críticos é considerada infraestrutura básica, não um luxo — está incluída na contratação agora autorizada.

O timing é revelador. Apenas dois meses antes, em Abril, o Governo inaugurou com pompa o seu data center nacional e cloud, um investimento de mais de 89 milhões de dólares criado no âmbito do Programa de Reforma da Administração Digital e Interoperabilidade para interligar Finanças, Interior, Educação, Saúde e Telecomunicações. A iniciativa foi apresentada como um passo estruturante na modernização do Estado angolano. O despacho do INSS mostra que, enquanto se construía essa infraestrutura central, uma das instituições com maior volume de dados sensíveis do país continuava a funcionar com equipamentos obsoletos e sem redundância.

A contratação será feita por procedimento simplificado, com o Presidente a delegar na ministra da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social a competência para aprovar os procedimentos e assinar os contratos. A urgência implícita na escolha desse regime de contratação diz, por si só, o que o despacho apenas insinua: o problema não podia esperar.

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