Os ataques nocturnos dos EUA ao Irão abalaram os mercados na madrugada destaquinta-feira, mas o impacto foi contido. O petróleo chegou a disparar mais de três dólares e o ouro oscilou mais de dois por cento na mesma sessão. Horas depois, a situação tinha estabilizado — sinal de que os investidores estão a desenvolver resistência a um conflito que já dura mais de cem dias.
O Brent abriu a sessão de quinta-feira acima dos 95 dólares por barril em reacção à nova vaga de ataques norte-americanos contra alvos militares iranianos, mas os ganhos esbateram-se ao longo da manhã. A esta hora, o petróleo de referência europeu sobe apenas 0,28%, para 93,35 dólares, enquanto o WTI avança 0,54%, para 90,51 dólares. O gás natural negociado em Amesterdão valoriza 1,3%, para 50,65 euros por megawatt-hora.
O ouro teve uma sessão ainda mais volátil: numa primeira reacção aos ataques, chegou a cair mais de 1% e a negociar abaixo dos 4.000 dólares por onça, mínimos de seis meses. Mais tarde inverteu as perdas e chegou a subir 1,1%. Neste momento acumula uma valorização de 0,61%, para 4.096 dólares. “A mais recente queda tem mais a ver com o reposicionamento de carteiras do que com uma reavaliação fundamental do ouro como activo de refúgio”, explicou Robert Gottlieb, antigo negociador de metais preciosos no JPMorgan Chase.
O euro reage com contenção ao ambiente de risco: sobe 0,16% para 1,5553 dólares, enquanto a libra ganha igual percentagem para 1,3389 dólares. O índice do dólar cai marginalmente, 0,04%.
O padrão da sessão — volatilidade inicial seguida de recuperação — reflecte um mercado que começa a mostrar sinais de fadiga perante o conflito. “Este tipo de escalada, se tivesse ocorrido há algumas semanas, provavelmente teria feito com que o Brent voltasse a ultrapassar os 100 dólares e que o dólar disparasse”, disse Nick Twidale, analista-chefe da ATFX Global. O “fluxo constante de notícias contraditórias está a aumentar as incertezas e a levar os investidores a reduzir a exposição ao risco e a aumentar a liquidez”, acrescenta Robert Gottlieb.
Do lado dos bancos centrais, a pressão inflacionista gerada pelo conflito começa a forçar a mão das autoridades monetárias. O índice de preços no consumidor norte-americano acelerou para 4,2% em Maio em termos homólogos — o ritmo mais elevado desde início de 2023, acima dos 3,8% de Abril. Os investidores antecipam agora uma subida de 25 pontos base por parte da Reserva Federal ainda em 2026, embora apenas no último trimestre; a primeira reunião da era Kevin Warsh deverá manter a política monetária inalterada. Na Europa, o BCE enfrenta pressão semelhante: o encerramento do Estreito de Ormuz agravou o choque energético, e o mercado desconta uma subida de 25 pontos base nas taxas de juro europeia.
O contexto geopolítico permanece instável. O Irão declarou o fecho do Estreito de Ormuz a todas as embarcações, incluindo petroleiros — os EUA refutam e garantem que a via marítima continua operacional. Trump revelou que uma “missão secreta” ordenada em Maio permitiu escoar cerca de 100 milhões de barris de petróleo retidos na região, com mais de 200 navios comerciais a atravessar o estreito. Em paralelo, o Presidente ameaçou retomar os ataques caso Teerão não assine um acordo de paz.