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As “big tech” valem mais de 40% das bolsas globais e o risco de concentração nunca foi tão alto

Por cada dólar investido no S&P 500, cerca de 50 cêntimos vão para acções ligadas à inteligência artificial. A concentração supera já em 14 pontos percentuais o pico da bolha das dotcom de 2000.

As acções tecnológicas nunca pesaram tanto nas bolsas globais. Nos Estados Unidos, o sector das tecnologias da informação representa 32,9% do S&P 500 e os serviços de comunicação acrescentam mais 10,3%, totalizando 43,2% do índice de referência. Na Ásia, a proporção é semelhante: no MSCI AC Asia Index, os dois sectores combinados ultrapassam igualmente os 40%. Só na Europa o peso é mais modesto — as tecnológicas ocupam a quarta posição no Stoxx 600, com 8,2%, atrás dos sectores industrial, bancário e de saúde.

A concentração é ainda mais pronunciada quando se olha para os nomes que dominam Wall Street. As dez maiores acções do S&P 500 — na maioria pertencentes ao grupo das sete magníficas, Nvidia, Alphabet, Apple, Microsoft, Amazon, Tesla e Meta — representam actualmente 41% da capitalização bolsista do índice, um recorde histórico que supera em 14 pontos percentuais o pico registado durante a bolha das dotcom, em 2000. “Cerca de 41 cêntimos de cada dólar investido no S&P 500 fluem directamente para acções de apenas 10 empresas”, escreve a The Kobeissi Letter. “Aproximadamente 50 cêntimos de cada dólar estão agora a ser direccionados para acções ligadas à IA.”

Este domínio reflecte-se nos retornos. Em 2025, o sector das tecnologias da informação registou um ganho de 24% e o dos serviços de comunicação de 34%, ambos acima dos 18% do S&P 500 e dos 21% do Nasdaq 100. “Estes resultados mostram como um grupo relativamente pequeno de empresas pode moldar e influenciar os retornos em carteiras diversificadas”, refere uma análise do US Bancorp.

Parte desta acumulação tem uma explicação regulatória. Em 2018, a MSCI criou um novo sector de serviços de comunicação, retirando empresas como a Alphabet, Meta, Alibaba e Baidu do sector das tecnologias da informação. A consequência prática foi imediata: os investidores passaram a poder deter mais acções das “big tech” sem violar os limites de alocação sectorial. “A criação de um novo sector permitiu aos investidores terem mais ‘big tech’ sem violarem os limites de alocação sectorial”, resume a Columbia Threadneedle Investments.

Os riscos que ninguém quer ver

A euforia tem reverso. A forte concentração tecnológica nos índices assemelha-se à anatomia de uma bolha — e há quem já lance alertas nesse sentido. Basta a queda de uma ou duas grandes tecnológicas para provocar volatilidade imediata nos mercados mundiais, como tem acontecido sempre que surgem receios sobre o excesso de investimento em inteligência artificial e centros de dados.

O US Bancorp alerta que “os investidores com ampla exposição às acções dos EUA podem já ter uma grande exposição à tecnologia, mesmo que não tenham feito uma alocação específica ao sector” — o que significa que quem investe num fundo que replica o S&P 500 está, queira ou não, a fazer uma aposta significativa na IA. Só a Nvidia, Microsoft, Apple, Alphabet e Amazon representam cerca de 30% do índice.

Os riscos variam consoante o segmento. As empresas de serviços de comunicação, como a Alphabet, Meta ou Netflix, estão altamente expostas à publicidade — uma rubrica que recua em períodos de contracção económica. Já as empresas de tecnologias da informação, como a Nvidia ou a Microsoft, operam num sector cíclico, vulnerável a mudanças no sentimento do consumidor e nos ciclos de investimento. “Algumas destas empresas têm bases de custos elevados que podem levar a quedas nos lucros em épocas de crise. A incerteza política e regulatória também é um risco significativo”, aponta o Schwab Center for Financial Research.

A solução apontada pelos analistas passa pela diversificação — por dimensão de empresas, sectores e mercados globais —, que ajudará a atenuar a volatilidade associada ao domínio das “big tech”. Uma alternativa crescentemente utilizada é investir nas versões “equal weight” dos índices, em que todas as cotadas pesam o mesmo, em vez de as megacapitalizações ditarem o desempenho de todos os outros.

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