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Papa Leão XIV publica encíclica sobre inteligência artificial 

O Papa Leão XIV vai apresentar esta segunda-feira a sua primeira encíclica, um documento dedicado à preservação da dignidade humana na era da inteligência artificial. A apresentação, que decorrerá no Vaticano, tem um detalhe que não passou despercebido: ao lado do Papa estarão Christopher Olah, cofundador da Anthropic — uma das maiores empresas de desenvolvimento de IA do mundo —, além de prelados e teólogos católicos.

O documento, formalmente intitulado Magnifica Humanitas — Humanidade Magnífica —, foi assinado a 15 de Maio de 2026, data escolhida com intenção: coincide com o aniversário da Rerum Novarum, a encíclica histórica de 1891 do Papa Leão XIII sobre os direitos dos trabalhadores na era industrial. A coincidência não é acidental. O actual Papa escolheu o nome Leão precisamente em referência ao seu predecessor — aquele que respondeu à revolução industrial com uma visão social e moral que moldou o catolicismo do século XX. Agora, Leão XIV propõe-se fazer o mesmo com a revolução da inteligência artificial.

O que é uma encíclica — e por que importa

As encíclicas são documentos papais com quase 400 anos de tradição, geralmente dirigidos à Igreja Católica na sua totalidade, que expõem ensinamentos sobre desafios morais ou sociais da época. Não têm o estatuto legal de uma bula papal — uma declaração formal de artigo de fé —, mas os católicos são encorajados a deixar-se guiar por elas nas suas escolhas de vida. É uma das formas mais solenes e influentes de comunicação da Igreja com os seus 1,4 mil milhões de fiéis.

A novidade desta apresentação é que o Papa estará presente em pessoa — algo incomum —, e que o escolheu partilhar o palco com um dos principais arquitectos da tecnologia sobre a qual vai pronunciar-se.

As encíclicas mais marcantes da história moderna responderam cada uma ao seu tempo. A Rerum Novarum de 1891 defendeu os direitos dos trabalhadores e rejeitou tanto o socialismo como o capitalismo selvagem, tornando-se a pedra angular da doutrina social católica. A Pacem in Terris de 1963 — redigida em plena Guerra Fria por João XXIII — pediu o desarmamento nuclear e defendeu a criação de uma autoridade política global, sendo o primeiro documento papal dirigido a toda a humanidade, não apenas aos católicos.

A Humanae Vitae de 1968, de Paulo VI, confirmou a proibição da contracepção artificial e gerou um debate que ainda hoje não foi encerrado. A Caritas in Veritate de Bento XVI, em 2009, criticou a crescente desigualdade económica e pediu uma reforma ética do capitalismo financeiro. E a Laudato Si’ de Francisco, em 2015, foi a primeira encíclica dedicada inteiramente ao ambiente — e ajudou a galvanizar o movimento ecológico global, enquadrado como imperativo moral e espiritual, não apenas político ou científico.

A IA como novo desafio da dignidade humana

Com a Magnifica Humanitas, Leão XIV inscreve-se nessa tradição de intervenção nos momentos de viragem da história. A inteligência artificial está a transformar o trabalho, a comunicação, a criação e a própria definição de humanidade — e a Igreja Católica, com a sua presença global e a sua doutrina social construída ao longo de séculos, entra formalmente no debate.

A escolha de apresentar o documento ao lado de Christopher Olah — investigador conhecido pelas suas contribuições para a interpretabilidade dos sistemas de IA, ou seja, para tornar compreensível o que se passa dentro das máquinas — é em si mesma uma declaração. A Igreja não está a condenar a tecnologia: está a questionar como garantir que ela sirva a pessoa humana, e não o contrário.

O que dirá exatamente a encíclica só se saberá após a apresentação. Mas o momento — e o gesto de o apresentar ao lado de quem constrói IA — já é, por si só, uma mensagem.

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