A cimeira entre Xi Jinping e Donald Trump em Pequim terminou com uma lista de consensos declarados e uma questão por resolver: o estreito de Ormuz continua bloqueado, mas pela primeira vez há sinais de que a China pode ajudar a abri-lo.
A Pequim, esta sexta-feira, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês foi direto: “As vias marítimas devem ser reabertas o mais rapidamente possível.” E acrescentou, sem margem para interpretação: “Esta guerra, que nunca deveria ter ocorrido, não tem qualquer razão para continuar.” O apelo a um cessar-fogo “global e duradouro” no Médio Oriente surgiu à margem de dois dias de visita de Estado que colocaram frente a frente as duas maiores potências do mundo, num momento em que o conflito com o Irão continua a perturbar os mercados energéticos globais.
Ormuz no centro de tudo
Desde o início da guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, a 28 de fevereiro, Teerão tem bloqueado em grande parte a navegação no estreito de Ormuz — por onde transita habitualmente cerca de um quinto das exportações mundiais de petróleo e gás natural liquefeito. Washington mantém, por seu lado, um bloqueio naval aos portos iranianos, apesar do frágil cessar-fogo em vigor desde 8 de abril.
A China é diretamente afetada: é o principal parceiro económico e estratégico do Irão e o maior comprador do seu petróleo. Mas é também a potência que, neste momento, tem mais capacidade de pressionar Teerão. Trump disse à Fox News que Xi lhe garantiu que Pequim não enviaria equipamento militar ao Irão — e que estava disposto a ajudar na reabertura do estreito. Na quinta-feira, em plena cimeira, o Irão anunciou ter autorizado a passagem de vários navios chineses. Um sinal pequeno, mas não insignificante.
Os negócios por detrás da diplomacia
A visita de Trump a Pequim — acompanhado por uma delegação de grandes empresários — tinha também uma agenda comercial pesada. Xi prometeu a compra de 200 aviões Boeing, número inferior às 500 encomendas de 737 MAX e cerca de uma centena de modelos de longo curso que a imprensa tinha antecipado nos últimos meses. Pequim manifestou ainda interesse em adquirir petróleo e produtos agrícolas norte-americanos, sem valores concretos avançados.
Sobre Taiwan, Xi advertiu para o risco de “conflito” entre as duas potências, enquanto Trump respondeu nas redes sociais que o Presidente chinês “referiu elegantemente os Estados Unidos como talvez uma nação em declínio” — antes de precisar que a referência era ao período da administração Biden. Uma troca que diz muito sobre o tom real da cimeira por detrás do protocolo.
“Parceiros, não rivais”
A fórmula escolhida pelos dois lados para descrever o encontro foi a de “relação de estabilidade estratégica construtiva” — uma expressão diplomática que significa, na prática, que nenhum dos dois quer uma rutura aberta, mas que as tensões sobre Taiwan, comércio, semicondutores, inteligência artificial e propriedade intelectual continuam por resolver.
Xi disse: “Devemos ser parceiros, não rivais”, prometendo abrir “cada vez mais a China às empresas estrangeiras.” Trump regressou a Washington com acordos por confirmar, promessas por cumprir — e Ormuz ainda fechado.