O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inicia esta semana uma visita de alto nível à China num contexto de crescente tensão internacional e com expectativas bastante reduzidas quanto a progressos nas principais disputas estratégicas entre as duas maiores potências mundiais. Entretanto, Trump leva consigo para Pequim uma poderosa delegação empresarial, incluindo nomes como Elon Musk, da Tesla e da SpaceX, Tim Cook, além de executivos da Boeing, Goldman Sachs, BlackRock e Blackstone.
A deslocação a Pequim acontece depois de Donald Trump ter adiado a viagem durante seis semanas, apostando inicialmente que chegaria à capital chinesa após impor uma derrota estratégica ao Irão.
A expectativa da Casa Branca era apresentar resultados claros: a capitulação iraniana, a entrega do programa nuclear e a reabertura do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais de energia. Nada disso aconteceu.
O programa nuclear iraniano permanece intacto sob os escombros dos bombardeamentos norte-americanos realizados em junho, enquanto o Estreito de Ormuz continua encerrado, afectando directamente os interesses energéticos chineses, já que mais de 30% do petróleo importado pela China passa por aquela rota marítima.
A situação levou vários observadores internacionais a considerar que Trump chega politicamente enfraquecido à cimeira. O chanceler alemão, Friedrich Merz, chegou mesmo a afirmar recentemente que o Presidente norte-americano saiu “humilhado” do conflito com uma potência muito inferior.
Mas o cenário também cria dificuldades para Xi Jinping. Apesar da parceria estratégica entre Pequim e Teerão, a China mostrou-se incapaz — ou sem vontade — de apoiar directamente o Irão ou de apresentar uma solução para restaurar o fluxo de petróleo e gás necessário à sua economia.
Neste contexto, as ambições iniciais para a cimeira foram significativamente reduzidas. Embora se mantenham as cerimónias oficiais e o forte simbolismo diplomático, a reunião deverá concentrar-se sobretudo em comércio, tarifas e estabilidade económica, deixando para segundo plano questões mais profundas como segurança internacional, Taiwan, armas nucleares, inteligência artificial e cadeias globais de abastecimento.
Trump leva consigo uma poderosa delegação empresarial, incluindo nomes como Elon Musk, da Tesla e da SpaceX, Tim Cook, além de executivos da Boeing, Goldman Sachs, BlackRock e Blackstone.
Analistas consideram que a presença do secretário do Tesouro, Scott Bessent, como principal negociador da relação com Pequim demonstra a centralidade das questões económicas nesta fase das relações bilaterais.
Questões estratégicas como o arsenal nuclear chinês deverão permanecer praticamente sem avanços. Pequim continua a rejeitar participar em novos acordos de controlo de armas nucleares com Washington e Moscovo, defendendo que apenas aceitará negociações quando possuir um arsenal comparável ao das duas potências. Actualmente, a China possui cerca de 600 armas nucleares, número que o Pentágono estima poder atingir 1.500 até 2035.
Também a disputa tecnológica e cibernética deverá dominar parte das conversas. Washington acusa Pequim de intensificar operações de espionagem digital e de infiltração em infra-estruturas críticas norte-americanas, incluindo redes eléctricas e sistemas governamentais.
A competição em torno da inteligência artificial surge igualmente como uma preocupação crescente, sobretudo após o aparecimento de novos modelos capazes de identificar vulnerabilidades informáticas em segundos, aumentando os receios sobre ciberataques automatizados.
A questão de Taiwan deverá manter-se como um dos temas mais sensíveis. A China continua a pressionar os Estados Unidos para adoptarem uma posição mais dura contra qualquer movimento de independência da ilha, enquanto Washington insiste que não haverá alterações formais à sua política actual.
Outro ponto crítico é a disputa pelas cadeias globais de abastecimento. Os dois países aceleram esforços para reduzir a dependência mútua em sectores estratégicos, incluindo semicondutores, terras raras e tecnologias avançadas, num cenário cada vez mais marcado pela lógica de uma nova Guerra Fria económica e tecnológica.
Especialistas consideram, contudo, que a cimeira não deverá produzir mudanças estruturais na relação entre Washington e Pequim. “Trata-se de gerir estabilidade, não de resolver os grandes problemas”, resumiu o antigo representante comercial norte-americano Michael Froman, citado pelo The New York Times.