O Presidente angolano, João Lourenço, lançou hoje um duro aviso contra “a lógica de quem tem mais força” nas relações internacionais, considerando que a imposição de interesses das grandes potências pode empurrar o mundo para uma “conflagração global com consequências dramáticas”. O discurso foi proferido no parlamento argelino, durante a visita de Estado à Argélia, marcada pelo reforço da cooperação estratégica entre os dois países.
Envergando um “burnous”, manto tradicional argelino reservado a ocasiões solenes, João Lourenço discursou perante os deputados argelinos num tom fortemente político, defendendo a necessidade de restaurar o respeito pelo Direito Internacional e criticando a crescente tensão geopolítica mundial.
“O mundo vive uma prática perigosa”, afirmou o chefe de Estado angolano, ao condenar países que “impõem a terceiros a sua vontade e interesses contra todas as normas que regem as relações internacionais”.
Segundo João Lourenço, esta lógica de força está na origem de vários conflitos que marcam a actualidade internacional, desde a guerra entre a Ucrânia e a Rússia ao conflito no Médio Oriente, passando pelas crises no Sudão, República Democrática do Congo, Líbia, Somália e Mali.
“Reside neste tipo de posturas a grande causa das guerras que prevalecem no mundo”, declarou.
O Presidente angolano defendeu ainda que África deve assumir uma posição estratégica no actual contexto global, utilizando os seus recursos minerais e matérias-primas críticas como instrumento de desenvolvimento e equilíbrio internacional.
“A África deve deixar claro que os grandes actores mundiais podem ter acesso aos recursos de que necessitam apenas com base em parcerias equilibradas e no respeito pelas regras do comércio internacional”, sublinhou.
Durante o discurso, João Lourenço evocou também os laços históricos entre Angola e a Argélia, recordando o apoio argelino à luta anticolonial angolana e ao reconhecimento da independência de Angola.
“Olhamos para a Argélia como um país irmão, um aliado seguro e um parceiro leal”, afirmou, apelando igualmente à preservação da memória histórica sobre os crimes do colonialismo.
“Somos todos convidados a lutar contra a tendência de adulterar a História e branquear os horrores do colonialismo”, acrescentou.
A visita oficial ficou igualmente marcada pelo reforço da cooperação bilateral. Na véspera, João Lourenço reuniu-se com o Presidente argelino, Abdelmadjid Tebboune, com quem assinou 11 acordos de cooperação nos sectores dos transportes, petróleo e gás, indústria mineira, ensino superior, telecomunicações, recursos hídricos e formação profissional.
O chefe de Estado angolano destacou ainda o papel histórico da Argélia na formação dos primeiros quadros do sector petrolífero angolano e na consolidação da Sonangol.
Por sua vez, Abdelmadjid Tebboune anunciou a abertura, em julho, de uma ligação aérea directa entre Argel e Luanda, medida vista como mais um passo no aprofundamento das relações económicas e políticas entre os dois países.