O Presidente da República Democrática do Congo (RDC), Félix Tshisekedi, admitiu a possibilidade de disputar um terceiro mandato caso “o povo” o deseje, abrindo um debate político sobre uma eventual revisão constitucional num momento em que o país enfrenta pressão orçamental, guerra no leste e fragilidade económica.
As declarações de Tshisekedi estão a ser interpretadas pela oposição e por analistas políticos como um sinal de que o chefe de Estado poderá preparar o terreno para prolongar o ciclo de poder para além do limite constitucional de dois mandatos.
Embora o Presidente não tenha anunciado formalmente qualquer revisão da Constituição, a referência a um eventual referendo e ao impacto da instabilidade no leste do país sobre o calendário político foi suficiente para desencadear reacções internas e aumentar a especulação em torno das eleições previstas para 2028.
O contexto surge numa fase particularmente delicada para a RDC, onde a situação securitária continua a dominar a agenda política e económica. A guerra no leste do país, marcada pelo avanço de grupos armados e pelo agravamento da crise humanitária, tem pressionado as despesas do Estado com segurança e assistência às populações deslocadas.
Ao mesmo tempo, o Governo tenta manter uma trajectória de crescimento económico moderado e estabilidade macrofinanceira.
O orçamento da RDC para 2026 foi fixado em cerca de 20,3 mil milhões de dólares, acima do registado no ano anterior, reflectindo uma estratégia de expansão fiscal. No entanto, os dados mais recentes apontam para forte pressão sobre a tesouraria do Estado.
Segundo números oficiais, as receitas mobilizadas até meados de março ascendiam a 543,3 mil milhões de francos congoleses, mas as despesas previstas continuam superiores às entradas financeiras, revelando dificuldades de execução orçamental.
Apesar disso, os principais indicadores macroeconómicos mantêm-se relativamente estáveis. A inflação deverá estabilizar em torno dos 6% e o risco de dívida externa continua classificado como moderado pelas instituições financeiras internacionais.
Ainda assim, tanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) como o Banco Mundial alertam para a fragilidade estrutural da economia congolesa, fortemente dependente da mobilização interna de receitas e vulnerável a choques externos e à deterioração do contexto de segurança.
A possibilidade de uma disputa constitucional em torno da permanência de Tshisekedi no poder poderá, segundo analistas, afectar a confiança dos investidores e aumentar a incerteza política num país que continua a enfrentar desafios institucionais e financeiros significativos.
Na leitura de observadores regionais, o Presidente congolês parece estar a testar a reacção política e internacional à hipótese de prolongar o mandato, usando a necessidade de estabilidade num contexto de guerra como principal argumento político.