O grupo francês BPCE vai afinal pagar mais do que os 6,4 mil milhões de euros inicialmente anunciados pela compra do Novo Banco, num ajuste previsto no acordo de venda e que reflecte a forte rentabilidade recente da instituição.
A informação, avançada pela imprensa portuguesa, indica que o preço final poderá ser revisto em alta em função dos resultados do banco, que em 2025 registou lucros recorde de 828 milhões de euros — uma subida de 11,2% face ao ano anterior.
Este desempenho consolidou o Novo Banco como uma das instituições mais rentáveis do sistema financeiro português, com o rácio de rentabilidade (Return on Tangible Equity) a subir de 17,4% para 21,4%. Já o rácio CET1 fixou-se nos 17,4% e o rácio de capital total nos 20,2%.
Além do valor da aquisição, o grupo francês deverá ainda receber cerca de 500 milhões de euros em dividendos relativos a 2025, que estavam congelados até à conclusão da operação.
Um desfecho quase uma década depois do BES
A venda, que deverá ficar concluída a 30 de Abril, encerra um dos capítulos mais marcantes da banca portuguesa recente. O Novo Banco nasceu em 2014, na sequência da resolução do Banco Espírito Santo (BES), colapsado após uma crise financeira que expôs fragilidades graves na sua gestão e estrutura.
Na altura, o banco foi dividido entre um “banco bom” — o Novo Banco — e um “banco mau”, que reteve os activos problemáticos. A solução foi financiada pelo Fundo de Resolução, com apoio público, e viria a implicar vários anos de recapitalizações.
Em 2017, o fundo norte-americano Lone Star adquiriu 75% do capital, ficando os restantes 25% nas mãos do Estado português, através do Fundo de Resolução e da Direção-Geral do Tesouro.
Ligações a Angola e o caso BESA
A história do BES — e, por consequência, do Novo Banco — não pode ser dissociada da sua presença internacional, em particular em Angola, através do Banco Espírito Santo Angola (BESA).
O BESA foi, durante anos, uma peça central da estratégia internacional do BES, mas acabou também por se tornar um dos seus maiores problemas. Exposto a crédito de risco elevado e com garantias controversas, o banco angolano enfrentou sérias dificuldades na sequência da crise de 2014.
Ao contrário do que aconteceu em Portugal, onde o Novo Banco foi criado para preservar a atividade considerada viável, em Angola o BESA foi alvo de uma solução distinta: foi recapitalizado e reestruturado com forte intervenção estatal angolana, dando origem ao actual Banco Económico.
A comparação entre os dois processos evidencia abordagens diferentes: enquanto em Portugal se optou por uma resolução com separação de activos e posterior venda ao sector privado, em Angola houve uma intervenção directa do Estado para estabilizar o sistema financeiro e assegurar a continuidade do banco.
Venda acima do valor contabilístico
O acordo entre a Lone Star e o BPCE, anunciado em Junho de 2025, apontava para uma valorização de cerca de 6,4 mil milhões de euros para 100% do capital. Este valor surpreendeu o mercado, já que correspondia a cerca de 1,7 vezes o valor contabilístico do banco à data.
O encaixe da venda será distribuído pelos accionistas: 75% para a Lone Star e 25% para entidades públicas portuguesas, o que deverá representar cerca de 1,68 mil milhões de euros para os cofres do Estado português.
Com esta aquisição, o BPCE reforça a sua presença em Portugal, passando a empregar mais de 7 mil trabalhadores no país, e fecha-se um ciclo que começou com a queda do BES e se estendeu por mais de uma década de reestruturação, perdas e recuperação.