No artigo anterior sustentei que a derrota mais profunda do dominado ocorre quando ele passa a vigiar o próprio pensamento. Quando o olhar do outro se instala dentro de nós como juiz permanente, a dominação deixa de ser externa e torna-se um mecanismo interior, silencioso e eficaz.
Mas, entretanto, reconhecer o problema foi apenas o primeiro passo. O diagnóstico, por si só, não cura. A questão que se impõe agora é outra: o que fazemos depois de identificar a colonização mental?
Há sempre um risco subtil — e perigoso — que acompanha este tipo de reflexão. O risco de transformar a crítica ao passado num novo refúgio psicológico. De continuarmos a explicar as nossas insuficiências apenas pela história, pelo colonialismo, pela violência estrutural que, sem dúvida, existiu e deixou marcas profundas. Tudo isso é real. Mas a explicação histórica não pode converter-se numa cultura de impotência.
Nenhuma sociedade se reconstrói lambendo permanente a sua fétida ferida.
A natureza oferece, por vezes, imagens mais eloquentes do que qualquer teoria. Nas zonas de exclusão de Chernobyl (Ucrânia) e de Fukushima (Japão), ambas devastadas por terríveis acidentes nucleares, a vida regressou, no entanto, com uma força inesperada ao fim de algumas décadas! Flora e fauna reorganizaram-se, adaptaram-se e reconstruíram ecossistemas inteiros em ambientes considerados extremamente hostis.
Ora, os sistemas vivos possuem uma capacidade notável de auto-organização e de regeneração. Em termos científicos, fala-se de processos autopoiéticos: sistemas que se recriam e se mantêm a partir de si mesmos. Aliás, ironicamente, esta expressão foi mesmo cunhada no terceiro mundo, nos anos 70, por dois biólogos chilenos, o falecido professor Humberto Maturana e o seu ex-aluno, Francisco Varela.
As sociedades humanas não são tão diferentes. Quiçá, também possuam essa capacidade de regeneração autopoiética. Também sejam capazes de produzir, a partir do seu próprio interior, novas formas de organização, novos padrões de liderança e novas energias criativas.
Julgo que o problema africano — e o angolano em particular — não é a ausência dessa capacidade.
O problema é que criámos, ao longo do tempo, estruturas internas que bloqueiam o seu funcionamento natural.
Elites fechadas sobre si mesmas. Sistemas de poder endogâmicos que recompensam a proximidade em vez da competência. Culturas institucionais que sufocam a iniciativa. Ambientes sociais onde a dependência é mais segura do que a autonomia e onde o pensamento crítico é visto como ameaça e não como recurso. São todos estes (e mais alguns, da mesma índole) os nossos mais críticos factores contrapondo uma autorrecriação adaptativa no mundo contemporâneo.
Se o primeiro momento da nossa história recente foi o da atroz dominação externa, o segundo foi o da reprodução interna dos seus mecanismos, desta feita por algozes nacionais.
E é aqui que a nossa reflexão se deve tornar exigente e consequente.
A regeneração não virá de fora. Mas também não virá de mais diagnósticos, de mais conferências, de mais discursos sobre o passado. E, sobretudo, não virá de uma espera passiva messiânica ou por elites iluminadas que, um dia, decidam reformar-se.
Por mero recurso à história da humanidade, sabe-se que os sistemas de poder raramente se transformam por apelo moral.
Como um organismo vivo, com salvaguardas internas de sobrevivência, a verdadeira mudança começará quando a sociedade ativar os seus próprios mecanismos de auto-preservação orgânica, com pugna implacável sobre a virulência parasitária que a destrói.
Quando, a partir daí, a competência passar a gerar prestígio, quando a iniciativa encontrar espaço para crescer, quando as novas gerações forem motivadas e capacitadas à construir trajetórias fora dos circuitos de dependência e quando a autonomia económica, intelectual e profissional deixa de ser exceção para se tornar regra.
Nenhuma sociedade se cura porque alguém a salva. Cura-se exatamente quando deixa de esperar ser salva!
Em tempos escrevi que o Direito não era o salvador. Talvez tenha faltado dizer com clareza: nada e ninguém o é. Só nós nos podemos salvar.
Portanto, o desafio que hoje se coloca às sociedades africanas já não é apenas o de libertarem-se do peso da história colonial. É o de libertar-se das amarras mentais e institucionais que impedem o curso natural da sua própria história de regeneração.
A colonização mais perigosa é aquela que nos ensinou a duvidar da nossa capacidade de nos reorganizarmos por dentro. De forma autopoiética.
E infelizmente essa dúvida insidiosa continua a ser alimentada a partir de dentro até aos dias de hoje, como que por agenciamento interno.
Mas a emancipação começa no momento em que essa dúvida cessa, com o simples ligar de um interruptor em cada um de nós, que diz: pense, creia e recrie.
Todavia, o processo autoreconstrutivo a partir dos próprios recursos, da própria inteligência e da própria vontade não será fácil de todo. Ele será muitas vezes doloroso. Implicando traumáticas amputações psico-sociológicas, inclusive.
Logo, nada disso é uma receita, muito menos de feição analgésica. O que se propõe é um princípio de acção orientador: porque a cura é endógena ou não será!
Por: Gilberto Luther