O reverendo Jesse Jackson, que chegou a concorrer à presidência dos Estados Unidos, foi um orador vibrante e populista, uma força moral e política que teve como objectivo de vida “transformar a mente da América”.
Foi um defensor permanente dos pobres e esquecidos, o que fez do reverendo Jesse Jackson, uma das figuras negras mais influentes dos Estados Unidos no período que mediou as campanhas pelos direitos civis lideradas pelo reverendo Martin Luther King Jr. e a eleição de Barack Obama, morreu nesta terça-feira, 17 de Fevereiro. Tinha 84 anos.
A sua morte foi confirmada pela família em comunicado, que informou que Jackson “morreu pacificamente”, sem indicar a causa.
Jackson foi hospitalizado em Novembro para tratamento de uma condição neurodegenerativa rara e particularmente grave, a paralisia supranuclear progressiva (PSP), segundo a organização de defesa que fundou, a Rainbow PUSH Coalition. Em 2017, anunciou que sofria de doença de Parkinson, que nas fases iniciais pode produzir efeitos semelhantes nos movimentos corporais e na fala.
Jackson assumiu o legado do Martin Luther King após o seu assassinato, em 1968, e candidatou-se duas vezes à presidência, muito antes da eleição de Obama em 2008. Contudo, nunca alcançou nem a estatura moral dominante de King nem o triunfo político máximo atingido por Obama.
Em vez disso, pela força da sua linguagem, energia extraordinária e ambição, tornou-se uma força moral e política numa era racialmente ambígua, quando as leis segregacionistas de Jim Crow ainda eram uma memória viva e o poder político negro era mais uma aspiração do que uma realidade, escreve o The New York Times.
Com o seu evangelho de procura de consensos, os apelos para “manter a esperança viva” e as exigências de respeito para aqueles a quem raramente era concedido, Jackson — particularmente nos discursos galvanizadores nas convenções democratas de 1984 e 1988 — enunciou uma visão progressista que definiu a alma do Partido Democrata nas últimas décadas do século XX, ainda que não necessariamente as suas políticas.
Era uma visão, animada pela era dos direitos civis, em que uma coligação inclusiva de pessoas de cor e outros que viviam nas margens da sociedade americana avançaria para o centro e a transformaria.
“A minha base é composta pelos desesperados, os condenados, os deserdados, os desrespeitados e os desprezados”, afirmou Jackson, na Convenção Nacional Democrata de 1984, em São Francisco.
A sua ideia de uma coligação multirracial, apoiada por um governo activo para enfrentar a desigualdade persistente, continua central para a ala progressista do Partido Democrata e inspirou movimentos como o Black Lives Matter.
Um filho de Greenville
Nasceu Jesse Louis Burns, a 8 de Outubro de 1941, em Greenville, Carolina do Sul. A mãe, Helen Burns, tinha 16 anos, o pai, Noah Louis Robinson, um antigo pugilista de 33 anos, imponente e atraente, vivia perto, casado com outra mulher.
Em 1943, a sua mãe casou com Charles Jackson, que conhecera quando ele trabalhava como engraxador numa barbearia, antes de se alistar no Exército. Jackson acabou por adoptar Jesse 14 anos mais tarde. Quando o casal teve um filho em comum, Jesse foi enviado para viver com a avó materna.
Frequentou a North Carolina Agricultural and Technical State University, uma instituição historicamente negra em Greensboro. Aí apaixonou-se por uma estudante vibrante e cheia de energia chamada Jacqueline Lavinia Brown, conhecida como Jackie.
Casaram na véspera de Ano Novo de 1962.
Aos 24 anos, foi escolhido para dirigir, em Chicago, parte da Operation Breadbasket, uma campanha nacional de desenvolvimento económico cujo objectivo era usar boicotes para pressionar empresas brancas a contratar trabalhadores negros e a comprar bens e serviços a contratantes negros.
Em 1967, estava a ganhar reputação nacional ao promover o programa. Seis meses antes de se formar, abandonou os estudos no seminário para se dedicar a tempo inteiro ao movimento pelos direitos civis.
Muitos anos depois, em 1992, quando os democratas reconquistaram a Casa Branca com Bill Clinton, este nomeou-o enviado especial para África e, em 2000, concedeu-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta distinção civil do país.